
Um dos mais importantes fotojornalistas do país, Ricardo Chaves, conhecido como Kadão, construiu uma trajetória sólida e de excelência, reconhecida com admiração e carinho por colegas e amigos.
O fotógrafo morreu na última sexta-feira (4), aos 73 anos, em decorrência de um câncer. Ele receberia, nesta segunda-feira (7), a medalha Alberto André, a maior honraria da Associação Riograndense de Imprensa (ARI).
Natural de Porto Alegre, Kadão iniciou a carreira em 1969 como auxiliar de laboratório no jornal Zero Hora. Passou por veículos de comunicação de destaque, como o Jornal do Brasil, nos anos 1970; revistas Veja e IstoÉ, nos anos 1980; Agência Estado, entre as décadas de 1980 e 1990; retornando, em 1992, à Zero Hora, onde atuou por mais de 20 anos, como fotojornalista, editor de fotografia e responsável pela coluna Almanaque Gaúcho.
Acompanhou a transição do filme para o digital e ajudou a formar uma nova geração de fotojornalistas.
Os amigos lembram, como grandes momentos da carreira, a denúncia do sequestro dos uruguaios Lilián Celiberti e Universindo Díaz, em 1975, durante a ditadura militar; a cobertura da volta dos exilados; os registros da virada cultural no Rio de Janeiro entre os anos 1970 e 1980, período em que fotografou figuras como Xuxa, Lulu Santos e Fernanda Montenegro; as coberturas em Brasília, durante o fim do regime militar e o início do governo Collor; a cobertura da morte de Tancredo Neves; a Copa do Mundo de 1986, no México; as viagens internacionais de presidentes, incluindo a famosa viagem de Collor a Nova York; e a visita do papa João Paulo II ao Brasil.
Antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente, o colega jornalista e amigo Márcio Pinheiro já conhecia a fama de Kadão.
— Foi um fotógrafo importante, que trabalhou nas principais redações desse país, que teve uma atuação em várias frentes. Ele fez fotojornalismo político, fotojornalismo cultural, acompanhou grandes momentos, como as eleições diretas, a volta dos exilados, em especial o Brizola, com quem tinha um vínculo muito forte. Então, eu já tinha as melhores referências dele, e a partir do convívio, essa certeza só se ampliou — recorda.

Kadão era um trabalhador incansável, que se envolvia com as pautas e demonstrava grande entusiasmo. Pinheiro destaca uma contribuição pouco lembrada, para além do jornalismo político e esportivo: a faceta cultural de Kadão, que fez retratos de personalidades como Chico Buarque – que, hoje, Pinheiro exibe em sua casa.
O amigo descreve a "sensibilidade fantástica" de Ricardo Chaves ao explorar os artistas.
— Mais do que o Brasil perde um grande fotojornalista, um grande repórter fotográfico, eu perco um amigo — lamenta Pinheiro, que conhecia Kadão, figura imprescindível em sua vida, havia 33 anos.
O fotojornalista e amigo Jefferson Botega lembra que Kadão foi o primeiro fotógrafo brasileiro a registrar Leonel Brizola no exílio, no Uruguai, em 1974, após 10 anos, ao lado do jornalista Luiz Cláudio Cunha. O ex-governador levou os jornalistas até Montevidéu em uma Kombi e, durante o caminho, proferiu a famosa frase:
"Fui derrotado militarmente, mas não politicamente. Eu vou voltar".
Brizola retornou em 1979. Do mesmo modo, a foto das comemorações de seu retorno, capturada por Kadão em São Borja, é histórica, ressalta Botega.
— O que mais moldou meu caráter foram a lealdade e a ética do Kadão. Para ele, não bastava ser um bom fotógrafo, tinham muitos outros valores que tinham de vir junto. Respeito, ética e lealdade eram algumas das características que ele prezava — recorda.
Botega descreve o amigo como um mestre e uma referência e destaca sua generosidade.
— Nas redações, seu jeito tranquilo escondia um olhar atento, que via além do óbvio. Na rua, sua câmera era extensão da alma. E nos bastidores, era aquele que sabia ouvir, aconselhar e, quando necessário, cobrar, sempre com honestidade e afeto. A partida dele deixa um vazio imenso, mas também um legado que segue vivo em cada um que teve a sorte de aprender com ele — diz.
Botega também relembra um dos últimos trabalhos de Kadão: "Vidas Ausentes", realizado com a jornalista Kamila Almeida. A exposição inaugurada em 2011 retratou os quartos vazios de adolescentes que morreram em acidentes de trânsito no RS, enfatizando a ausência deixada por essas perdas. O trabalho rendeu um prêmio de jornalismo na categoria online.
Nos últimos anos, Kadão integrava um grupo de 12 jornalistas veteranos que, toda quinta-feira, se reúne em um bar no Menino Deus para relembrar histórias e causos da profissão. O fotógrafo era um dos autointitulados “alemers”.
— O Kadão foi um dos grandes — define o primo, jornalista e parceiro de confraria, Flávio Dutra.
A redação de Zero Hora guardará para sempre a memória e o legado de Ricardo Chaves, um dos mais extraordinários fotógrafos que o Brasil conheceu, destaca Marta Gleich, diretora-executiva de Jornalismo e Esporte do Grupo RBS:
— “Kadão”, como todos o chamavam, viveu a vida com uma máquina fotográfica como a extensão de sua mão, testemunhando o tempo. Foi um amigo e um mentor generoso, formador de talentos e inspirador de gerações de jornalistas que, sob sua orientação, aprenderam que a fotografia é muito mais do que um trabalho, é um compromisso com a História e uma forma de arte.