
Nos últimos 150 anos, os evangélicos têm demonstrado, pelo mundo, uma forte aproximação com Israel. No Brasil, não é diferente. Nesse cruzamento de informações, há, inclusive, a adoção de símbolos e a celebração de festas judaicas pelas igrejas - e, por vezes, a mistura entre política e religião.
Mas quais são as razões por trás disso? Na obra Paixão Por Israel (editora Thomas Nelson Brasil), o teólogo e historiador André Daniel Reinke explora as razões teológicas desse fenômeno, conectando a teologia com a história e a sociologia. Ele conversou com a coluna.
Por que os evangélicos são apaixonados por Israel?
A minha tese é de que os evangélicos são apaixonados por Israel porque são apaixonados pela Bíblia. As narrativas da Bíblia se cruzam com as dos evangélicos, que constituem sua identidade, e que encontram outras, que são de judeus e do Estado de Israel. São diferentes narrativas que acabam se cruzando em função da origem, a Bíblia.
É um fenômeno recente?
São níveis diferentes. Existe um interesse mais antigo, que tem essa base escatológica, que coloca um papel muito importante em relação ao final dos tempos. Essa relação é mais antiga.
A ideia da Jerusalém eterna, do juízo final?
Sim, do retorno de Jesus, da volta no Monte das Oliveiras, de frente para Jerusalém, essa ideia escatológica do final dos tempos, do reino de Deus. Isso depende de uma interpretação muito literal do texto, que começa com a Reforma, a partir do século 16, e ganha maior literalidade a partir dessas interpretações. Porque, até então, o cristianismo alegoriza essas partes do Antigo Testamento e transfere para a Igreja Católica. O reino de Deus não é uma questão literal, um governo em Jerusalém, mas sim Cristo governando o mundo todo, num reino eterno. Do século 16 até o 19, não temos um país chamado Israel. Há uma expectativa, no sentido da conversão de judeus e do retorno de Cristo. Isso é uma concepção muito parecida, inclusive, com o que o próprio judaísmo sustenta, que é o final dos tempos: um período de paz no mundo com o reino do Messias. Mas, com o movimento político do sionismo, a partir do final do século 19 e que se consolida com a formação do Estado de Israel, em 1948, surge essa nova expectativa, que acaba associada a narrativas bíblicas: o entusiasmo, como se o Evangelho estivesse se cumprindo de uma maneira literal, que, antes, não se imaginava.
Em que momento a bandeira de Israel começou a ser utilizada pelos evangélicos em eventos políticos?
Esse fenômeno é muito mais comum no meio pentecostal e neopentecostal. Há um imaginário evangélico, que entende Israel como uma espécie de bastião do conservadorismo e da direita. Grande parte do mundo evangélico é de direita, é conservador. Imagina-se muito que esse reino de Deus é também conservador. Só que aí é a função do imaginário. Israel não é um país conservador, pelo contrário, é muito progressista. Mas, no imaginário, funciona como essa espécie de ponta de lança no Oriente Médio, da civilização ocidental desse mundo conservador, contra os inimigos ao redor, que são quase que uma espécie de esquerda. Imagina-se como o lugar do conservadorismo, "o Estado de Israel é abençoado porque ele segue a Bíblia". Mas, na verdade, Israel sequer tem uma Constituição, e não é a Torá que rege o país.
A bandeira acaba simbolizando um pouco os princípios conservadores, ocidentais e em oposição, de certa forma, ao mundo muçulmano. Como funciona?
A bandeira é fruto de um entrecruzamento muito grande, porque tem ali no seu centro um símbolo que, embora seja recente na história judaica, porque era do século 21, a estrela de Davi, acaba sendo um símbolo religioso e em cima das cores que emulou o Talit. Só que são símbolos que saem do mundo religioso e acabam sendo usados para se fazer uma bandeira de uma nação, inclusive laica, e se torna um símbolo cívico. Acho até irônico, por que o evangélico faz o quê? Pega um símbolo que os judeus retiraram do mundo religioso e colocaram no mundo cívico. E eles retiram do mundo cívico e devolvem para o mundo religioso, por que agora ele simboliza o quê? O reino de Deus. É a ideia dos princípios morais que nos regem e tudo que está sendo tremulada. Tudo isso trabalha com o quê? O Estado de Israel não é ainda o reino de Deus, mas é uma espécie de degrau, uma etapa inicial antes de chegar lá. Porque também houve uma decepção com a fundação, porque ele não se tornou um Estado teocrático, muito menos de pessoas religiosas. A grande massa de judeus que fundaram o Estado inclusive eram totalmente seculares, laicos, muitos ateus. Como não aconteceu do jeito que se imaginava, agora é uma etapa para o futuro reino de Cristo a partir de Israel e Jerusalém. Você vai para Israel, visita os lugares dos grandes acontecimentos da Bíblia. Então acaba se entrecruzando tudo.
O que é política e o que é de fato afinidade religiosa?
Tudo se embaralha, nós que separamos. Mas a questão religiosa e política é junto, porque a própria ideia, não é uma ideia política, é uma ideia de um final da história que, claro, não é feita pela condição humana, é uma realização divina. E nesse cenário dos acontecimentos existe também uma expectativa muito literal de interpretação. É importante dizer que é uma interpretação de apenas uma parte dos evangélicos. Nós temos muitas outras interpretações. Mas (há) essa ideia do Armagedon que vai ter uma grande guerra mundial, onde todas as nações se voltam contra o Israel isolado ali no meio. Isso também, por mais que seja escatológico do âmbito religioso, é imaginado num mundo muito concreto e real. Toda vez que você vê uma Rússia apoiando o Irã contra Israel, a especulação começa a se ampliar.
Há judeus que se incomodam com a apropriação de elementos de sua fé pelos evangélicos. O senhor tem alguma reflexão sobre isso?
No livro, entrevistei rabinos, e me falaram isso. Há um desconforto sobre o uso da simbólica judaica, dos rituais, das festas e dos termos. Um rabino chegou a comentar sobre apropriação cultural. Discordo, porque a apropriação cultural deve ter uma relação de poder estabelecida, e não é o caso. Não existe no Brasil um relacionamento entre comunidade judaica e evangélica. É diferente, por exemplo, nos Estados Unidos. Lá, eles têm relacionamento, porque trabalham em associações em comum, sionistas cristãos em apoio a Israel. Como (aqui) não há esse relacionamento, o evangélico se aproxima desses símbolos muito pela leitura, literatura, pela internet e por olhar de longe. Vai se aproximando e usando, até de maneira indevida. Alguns até não se importam, o judeu é mais seculares. Mas a bandeira de Israel, todos com os quais conversei, ficam muito incomodados pelo uso. Todos acham muito ruim pelo uso político e também religioso. "O que a bandeira está fazendo lá no púlpito da igreja?" Acontece muito.
O bispo Edir Macedo usa kipá e alguns outros símbolos judaicos. Isso não é apropriação?
São, na verdade, ressignificados. No mundo evangélico é até difícil explicar, porque não entende que ele mesmo, quando faz uso dos símbolos, também significa uma adaptação. Não vai ser a mesma coisa, vai ser outra. Nasce uma nova expressão que o evangélico imagina estar celebrando aquela que é uma festa bíblica. E é aí que acontecem esses entrecruzamentos. Essas festas judaicas foram se desenvolvendo ao longo de dois mil anos de tradição, a partir de um referencial original que é da Bíblia, mas vai se transformando ao longo do tempo. Quando o evangélico pega a festa judaica hoje e imita, ele está imaginando que está celebrando a festa da Bíblia, mas é outra coisa também. Como símbolo, de fato, ele acaba transcendendo o tempo. Quando estive visitando o Templo de Salomão, em São Paulo, fui no Jardim Bíblico, e tem um tabernáculo, conforme escrito na Bíblia, no tamanho certo. Você entra, vê a arca e tudo mais. Do lado de fora, há o altar dos holocaustos, que é do tempo de Moisés. No altar, havia um vasilhame de bronze e estava gravada a Estrela de Davi. Digo: "Olha o tamanho do anacronismo". Mesmo que essa Estrela de Davi fosse de Davi, e não é, ela é lá da Idade Média, do século 17, não poderia estar ali, porque Moisés é muito anterior a Davi. Mas está lá, por quê? Porque é um símbolo do judaísmo universal. Passa a ser imaginado como presente desde Abraão.
E os políticos que se apropriam desses símbolos?
Isso acontece, porque é evidente que todo mundo faz uso político. O próprio Estado de Israel se aproveita disso também, ao longo das últimas décadas, com essa grande afluência evangélica mundial para lá. Estão ajustando o discurso do turismo. Está ficando mais bíblico. Há 20 anos, não era assim. Todos os versículos que os evangélicos citam sobre apoiar a Israel, sobre profecia, o Ministério do Turismo de Israel hoje está replicando e usando. A partir dos anos 1970, houve uma grande ênfase na questão do Holocausto. A narrativa da importância do Estado para proteger o povo judeu, do antissemitismo, era a atônica. E, de repente, com essa ênfase religiosa vinda de fora do mundo evangélico, vamos focar na nossa história religiosa, na própria arqueologia.
Essa associação é um movimento só no Brasil ou também global?
Internacional. Esse grande movimento de apoio a Israel pelo mundo evangélico começa nos Estados Unidos. Já existe no Reino Unido antes. Depois, os EUA tomam a frente, principalmente após a Segunda Guerra Mundial. Tem algumas ênfases europeias também. Na Alemanha, temos muitos sionistas cristãos. Mas os EUA é realmente o principal. Como o mundo evangélico do Brasil é filhote do americano e bebe dessa fonte até hoje, também vai bastante nessa toada.
Além dessa ênfase escatológica que você citou no começo, há outro detalhamento. Qual seria?
Duas ênfases que desembocam no mesmo tipo de apoio. Uma escatológica, essa função mais teológica, bíblica, em relação ao final dos tempos, e a outra é mais nesse imaginário do uso da simbólica judaica. Como se "compartilhamos os símbolos, então estamos do lado deles". A razão é outra. Inclusive esses grupos não se dão. O que é dispensacionalista tem pavor desse uso simbólico do mundo judaico. Outros acham que a doutrina cristã corrompeu a original que era mais judaica. É um mundo em guerra também. O mundo evangélico hoje está em pé de guerra internamente. Israel está na ponta dessa guerra também.