
Nos últimos dias, as redes sociais se encheram de versões “Ghibli” de fotos de gente como a gente. Rostos comuns transformados em ilustrações dignas dos filmes encantadores do Studio Ghibli, criados por Hayao Miyazaki. A febre foi tanta que Sam Altman, CEO da OpenAI, brincou no X (ex-Twitter): “Descobrimos por que o ChatGPT estava lento hoje — todo mundo estava fazendo imagens Ghibli.”
Bonito? É. Inofensivo? Nem tanto.
Essa tendência, que usa inteligência artificial para criar ilustrações no estilo Ghibli, levanta debates sérios sobre autoria, direitos, sustentabilidade e o lugar do humano na criação.
A arte virou filtro
O Studio Ghibli é sinônimo de cuidado, sensibilidade e trabalho artesanal. Seus filmes são feitos à mão, com traços que respiram tempo, cultura e propósito. Ao virar “estilo replicável” por IA, esse traço tão único passa a ser tratado como filtro — algo que qualquer um aplica em segundos. Como a gente faz já há anos no Instagram.
Hayao Miyazaki já foi direto: chamou esse tipo de uso da IA de “insulto à vida”. Não é exagero. Quando algo feito com tanta intenção vira efeito de moda, a gente precisa parar e perguntar: até onde vai o uso legítimo da tecnologia?
Imagine você, que está lendo esta coluna, se a OpenAI — ou qualquer outra empresa de inteligência artificial — decidisse treinar seus modelos com dados da sua empresa, ou com obras que você criou ou escreveu, e liberasse tudo isso gratuitamente para o mundo inteiro. Como você se sentiria?
IA que aprende sem pedir licença
Dados do AI and Copyright Monitor mostram que mais de 1 bilhão de imagens com estilos protegidos por direitos autorais foram usadas para treinar modelos de IA generativa em 2023 — muitas sem autorização. O Studio Ghibli nunca autorizou o uso do seu estilo nesse tipo de ferramenta.
Ou seja, enquanto usuários se divertem “ghiblificando” selfies, a tecnologia que viabiliza isso pode ter sido treinada com base em obras protegidas, num vácuo jurídico e ético.
Menos artistas, mais algoritmos
O impacto é prático. Um relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) mostra que entre 25% e 40% das funções criativas podem ser afetadas pela IA nos próximos anos. E já está acontecendo: um programa de TV espanhol usou retratos em estilo Ghibli feitos por IA em vez de contratar ilustradores. A repercussão foi negativa, e a equipe precisou se retratar publicamente.
Nem toda inovação é neutra. Nem toda fofura é leve. E quase sempre, a tecnologia vem sem bula.
A fofura também consome recursos
Outro ponto esquecido: o custo ambiental. Um estudo da University of California, Riverside mostrou que gerar um simples e-mail de 100 palavras por IA pode consumir mais de 500 ml de água — usada no resfriamento dos servidores. Imagine o gasto para gerar milhões de imagens de alta resolução em poucos dias, como aconteceu agora. É claro que não somos nós os culpados únicos e maiores pelo consumo de água e a falta de recursos naturais, mas este também é um ponto relevante.
Tecnologia não é mágica. Ela consome energia, água, processamento. E nem sempre de forma consciente.
Por trás da tendência, o alerta
Esse tipo de trend parece leve, divertida e inocente. Mas vem embutida com questões profundas sobre autoria, respeito e sustentabilidade. Não se trata de ser contra a tecnologia. Mas de usá-la com mais consciência. Saber de onde vem, a quem pode afetar e o que está sendo deixado para trás enquanto clicamos em “gerar”.
Nem toda inovação é neutra. Nem toda fofura é leve.
E quase sempre, a tecnologia vem sem bula.