
A democracia não perdeu só prestígio, perdeu sentido mesmo. Não empolga mais, não inspira, não mobiliza. Virou uma engrenagem emperrada, um ritual vazio que a cada eleição insiste em discutir os mesmos problemas sem conseguir virar a página. É nesse deserto de expectativas que cresce o número dos que topam qualquer coisa. Inclusive um golpe.
Sim, houve plano golpista, com direito a minuta para prender inimigos, reuniões com militares, espionagem ilegal, convite a generais. A questão já não é o que houve, é por que milhões insistem em negar que houve. Ou, sei lá, insistem em dizer que o verdadeiro golpe foi soltar um presidiário e permitir que ele voltasse ao poder — o que pode ser uma cambalhota retórica, mas é também uma evidência de que, para muita gente, o sistema todo virou uma farsa.
O mais inquietante é que esse tipo de narrativa encontra solo fértil. Junte a desconfiança no tal sistema à sucessão de eleições que prometem mundos e, na prática, não entregam sequer uma calçada nova, e o resultado é esta pergunta: democracia para quê? O que eu ganho com ela?
Porque, vamos combinar, depois daquele arroubo de inclusão social e segurança econômica, lá nos anos 90 e 2000, a vida das pessoas empacou. Se não recuou. E a percepção geral é de um Estado que falha na saúde, na educação, na eficiência e só funciona para garantir foro privilegiado, emenda parlamentar e blindagem jurídica aos figurões.
É esse o campo onde germina o golpismo: o terreno do cansaço. Hannah Arendt já escrevia que regimes totalitários não se erguem com base na mentira, mas na descrença generalizada na verdade. Quando tudo parece falso, qualquer versão serve. Quando todas as promessas fracassam, qualquer ruptura é admissível.
O que torna o atual momento tão perigoso é isso: uma tentativa de golpe já não choca. Para muitos, é só mais uma hipótese em aberto — e essa calma diante do abismo, sim, é nova. O desafio deixou de ser apenas resistir ao autoritarismo, mas vencer a indiferença. E como se faz isso? Fazendo a democracia voltar a entregar o que prometeu: dignidade, igualdade, horizonte.
O voto precisa recuperar o peso de um gesto que desloca o mundo — não de uma formalidade que se repete sem consequência. Se continuar desconectada da vida concreta, a democracia talvez nem seja destruída por um golpe. Vai ser abandonada por desinteresse.