
No dia seguinte ao tarifaço de Donald Trump, que afeta nada menos de 185 países, a percepção majoritária no Brasil é de alívio relativo, enquanto no Exterior os mercados têm reação negativa, sob temor de desaceleração da economia global.
— A notícia não é boa: cria instabilidade no mundo, distorce investimentos, afeta cadeias globais de valor. É ruim para o mundo inteiro. Mas é bom lembrar que um parceiro prioritário dos EUA, Israel, levou 17%, a Europa, 20%. Então o Brasil ainda foi menos prejudicado do que esses parceiros que têm muito mais comércio com os americanos — avalia Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior.
Como os países da região foram os mais impactados, as bolsas asiáticas tiveram fortes quedas. A Nikkei, no Japão, despencou 2,77%, a Hang Seng, da Coreia do Sul, caiu 1,57%. O impacto nos futuros das bolsas americanas é ainda pior: o Dow Jones Industrial (o mais tradicional) tomba 2,87%, o S&P 500 (o mais abrangente) perde 3,4% e até a Nasdaq, de tecnologia desaba 3,92%.
Desde que começou o pronunciamento do "Dia da Libertação", o dólar perde valor ante moedas fortes. Nesta quinta-feira (3), abriu em queda de 1,39%, para R$ 5,619 no Brasil. Analistas interpretam que o "Dia da Libertação" desencadeou um movimento global de aversão ao risco.
Essa reação indica que a percepção geral sobre o tarifaço é de que vai elevar a inflação nos Estados Unidos, levando o juro a permanecer alto por mais tempo e, assim, desacelerar ainda mais a economia. Vários segmentos da atividade produtiva americana devem ser severamente afetados pela elevação das alíquotas de importação por depender de insumos vindos do Exterior.
Na tentativa de explicar a insistência em um movimento em que Trump "shot himself in the foot" (atirou no próprio pé), analistas avaliam que Trump está cercado de "negacionistas econômicos". Adotou medidas que talvez fizessem sentido nos anos 1950, quando produtos eram o foco da economia americana, quando os serviços, especialmente de tecnologia, são muito mais importantes para a economia americana – e possíveis alvos de eventuais retaliações.
Atualização: o índice Dow Jones, o mais tradicional da bolsa de Nova York, cai 3,6% antes do final da manhã. O S&P 500, o mais abrangente, tomba 3,9%. A Nasdaq, de tecnologia, desaba 4,9%. São níveis de queda compatíveis com momentos de crise global.
Os impactos possíveis
Antes do anúncio oficial, bancos, universidades e órgãos de financiamento de exportações fizeram projeções sobre o impacto do tarifaço de Trump. Cada um adotou um cenário diferente para o aumento das alíquotas.
1. Goldman Sachs, uma das maiores instituições financeiras dos EUA, com aumento de 15 pontos percentuais neste ano: aumento na probabilidade de recessão de 20% para 35%, alta no índice de inflação mais observado pelo Fed de 3,5% (a meta lá é de 2% ao ano).
2. Laboratório de Orçamento da Universidade de Yale, com elevação de 13% na tarifa efetiva dos EUA: aumento de preços entre 1,7% e 2,1%, redução entre 0,6 e 1 ponto percentual no PIB e perdas de US$ 1 mil a US$ 1,3 mil para as famílias americanas.
3. Instituto das Economias em Desenvolvimento, ligado à Organização de Comércio Exterior do Japão (Jetro, na sigla em inglês), com tarifas de 25% dos EUA: queda de 0,6% no Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2027 (perda de US$ 763 bilhões), puxado por tombo de 2,7% no PIB americano de 2027 e forte impacto nos lucros de empresas americanas que dependem de componentes chineses.
4. Universidade Aston (Reino Unido), com tarifas de 25% sobre todas as importações, seguidas de retaliações na mesma alíquota: perda de US$ 1,4 trilhão na economia mundial e drástica elevação de preços nos EUA. Teria efeitos semelhantes ao da guerra comercial de 1930 que aprofundou a Grande Depressão.