
Se a abertura do dólar já foi em forte alta, ao longo do dia a cotação disparou, mesmo em escala conservadora para uso desse verbo. A moeda americana saltou 3,68%, para R$ 5,836. A retaliação da China, que anunciou a disposição de aplicar a todos os produtos vindos dos EUA a mesma tarifa imposta por Donald Trump ao gigante asiático, de 34%, colocou em xeque sua tática de negociar sob a sombra da incerteza.
O temor de recessão global, que já existia antes do anúncio do tarifaço, foi acentuado. Todas as bolsas asiáticas voltaram a fechar no negativo, com destaque para a japonesa Nikkei, que caiu 2,75%. Na Europa, o pior desempenho foi da bolsa de Milão, que tombou 6,53%. As americanas despencaram ao redor de 5%. Só a Nasdaq, de tecnologia, teve queda de levemente menor do que a da véspera, de 5,8%, ante 5,9%.
E se a manhã foi ruim, a tarde foi pior. O presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), Jerome Powell, admitiu risco de queda no PIB americano:
— Não fazemos previsão de recessão, mas muitos analistas externos o fazem e muitos aumentaram a probabilidade, embora a partir de níveis muito baixos.

A dura capa da revista britânica The Economist precisaria acrescentar um "s": havia sido "Ruination Day", no singular. Agora, são dois dias de ruína, exigiria plural. Mas a publicação manteve o singular e trouxe uma nova imagem poderosa: um boné azul (cor dos republicanos como Trump) com a frase "Make China Great Again". É outra forma de afirmar que o presidente americano está dando tiro no próprio pé, ou que está dando arsenal ao inimigo.
O aprofundamento do temor de recessão tem, além da admissão de Powell, duas explicações. A primeira é que há consenso de que as projeções feitas até agora subestimaram o tarifaço de Trump. Não estavam no radar alíquotas de 49% para Camboja, 46% para Vietnã, 34% para China e 26% para a Coreia do Sul . A segunda é que não se esperavam represálias tão rápidas e duras quanto a da China.
O próprio Trump acusou o golpe, ao afirmar que a China "entrou em pânico", "jogo errado" e fez "a única coisa que não podia" ao retaliar. O que espera é uma romaria de pedintes na Casa Branca, papel que os chineses não parecem dispostos a cumprir.
Por que o dólar caiu, depois subiu com tarifaço
É um paradoxo previsto para a situação criada pela tática da "bazuca tarifária" do presidente dos Estados Unidos. No dia seguinte à medida, o dólar afundou frente a várias moedas, especialmente as mais fortes, como euro, iene e franco suíço, porque houve percepção de que a grande perdedora era a economia americana. Foi nos EUA que as bolsas caíram mais, com perda de US$ 2,9 trilhões em valor de mercado.
Com a retaliação da China, o temor de crise global se aprofunda e parte dos investidores corre para o famoso "porto seguro do dólar", porque não está claro para ninguém o que pode ocorrer a partir de agora.
Os impactos possíveis
Antes do anúncio oficial, bancos, universidades e órgãos de financiamento de exportações fizeram projeções sobre o impacto do tarifaço de Trump. Cada um adotou um cenário diferente para o aumento das alíquotas.
A coluna mantém, ao final dos textos sobre o tarifaço de Trump, os principais pontos, mas adverte: o anúncio, concordam os especialistas, foi pior do que o esperado e tornou os cenários traçados benignos frente ao potencial de prejuízos.
1. Goldman Sachs, uma das maiores instituições financeiras dos EUA, com aumento de 15 pontos percentuais neste ano: aumento na probabilidade de recessão de 20% para 35%, alta no índice de inflação mais observado pelo Fed de 3,5% (a meta lá é de 2% ao ano).
2. Laboratório de Orçamento da Universidade de Yale, com elevação de 13% na tarifa efetiva dos EUA: aumento de preços entre 1,7% e 2,1%, redução entre 0,6 e 1 ponto percentual no PIB e perdas de US$ 1 mil a US$ 1,3 mil para as famílias americanas.
3. Instituto das Economias em Desenvolvimento, ligado à Organização de Comércio Exterior do Japão (Jetro, na sigla em inglês), com tarifas de 25% dos EUA: queda de 0,6% no Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2027 (perda de US$ 763 bilhões), puxado por tombo de 2,7% no PIB americano de 2027 e forte impacto nos lucros de empresas americanas que dependem de componentes chineses.
4. Universidade Aston (Reino Unido), com tarifas de 25% sobre todas as importações, seguidas de retaliações na mesma alíquota: perda de US$ 1,4 trilhão na economia mundial e drástica elevação de preços nos EUA. Teria efeitos semelhantes ao da guerra comercial de 1930 que aprofundou a Grande Depressão.