
A retaliação da China ao tarifaço de Donald Trump fez o dólar abrir em forte alta no Brasil. Menos de uma hora depois do início das negociações, a moeda americana salta 2%, para R$ 5,741, acima do valor de fechamento de ontem.
É um paradoxo previsto para a situação criada pela tática da "bazuca tarifária" do presidente dos Estados Unidos. No dia seguinte à medida, o dólar afundou frente a várias moedas, especialmente as mais fortes, como euro, iene e franco suíço, porque havia percepção de que a grande perdedora era a economia americana. Foi nos EUA que as bolsas caíram mais, com perda de US$ 2,9 trilhões em valor de mercado.
Com a retaliação da China, porém, o temor de crise global se aprofunda e parte dos investidores corre para o famoso "porto seguro do dólar", porque não está claro para ninguém o que pode ocorrer a partir de agora.
Todas as bolsas asiáticas voltaram a fechar no negativo, com destaque para a japonesa Nikkei, que cai mais 2,75%. Na Europa, a maré vermelha se estende, com perdas fortes em ações de bancos – sinal de temor de desaceleração mais intensa da economia global. O índice europeu transnacional Stoxx 600 opera em queda perto de 5%. Nos EUA, os índices futuros já sinalizam novas quedas da ordem de 3%.
O índice VIX da Chicago Board Options Exchange (Cboe), apelidado no mercado de "indicador do medo", por medir a volatilidade nos mercados, dispara cerca de 30% nesta sexta-feira (4).
A coluna mantém, ao final dos textos sobre o tarifaço de Trump, os principais pontos de estudos sobre as consequências da medida, mas adverte: o anúncio, concordam os especialistas, foi pior do que o esperado e tornou os cenários traçados benignos frente ao potencial de prejuízos.
Os impactos possíveis
Antes do anúncio oficial, bancos, universidades e órgãos de financiamento de exportações fizeram projeções sobre o impacto do tarifaço de Trump. Cada um adotou um cenário diferente para o aumento das alíquotas.
1. Goldman Sachs, uma das maiores instituições financeiras dos EUA, com aumento de 15 pontos percentuais neste ano: aumento na probabilidade de recessão de 20% para 35%, alta no índice de inflação mais observado pelo Fed de 3,5% (a meta lá é de 2% ao ano).
2. Laboratório de Orçamento da Universidade de Yale, com elevação de 13% na tarifa efetiva dos EUA: aumento de preços entre 1,7% e 2,1%, redução entre 0,6 e 1 ponto percentual no PIB e perdas de US$ 1 mil a US$ 1,3 mil para as famílias americanas.
3. Instituto das Economias em Desenvolvimento, ligado à Organização de Comércio Exterior do Japão (Jetro, na sigla em inglês), com tarifas de 25% dos EUA: queda de 0,6% no Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2027 (perda de US$ 763 bilhões), puxado por tombo de 2,7% no PIB americano de 2027 e forte impacto nos lucros de empresas americanas que dependem de componentes chineses.
4. Universidade Aston (Reino Unido), com tarifas de 25% sobre todas as importações, seguidas de retaliações na mesma alíquota: perda de US$ 1,4 trilhão na economia mundial e drástica elevação de preços nos EUA. Teria efeitos semelhantes ao da guerra comercial de 1930 que aprofundou a Grande Depressão.