
O tarifaço de Donald Trump provocou uma perda de US$ 2,9 trilhões nas bolsas americanas, o que equivale a quase 10% do PIB dos Estados Unidos, estimado em US$ 30 trilhões pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Em um único dia, o seguinte ao anúncio das medidas. Quase metade desse valor, US$ 1,03 trilhão, se evaporou das "magnificent seven" (sete magníficas, que são Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvídia e Tesla). Todas as demais empresas americanas perderam US$ 1,88 trilhão em valor de mercado.
Mas é bom que fique claro: as empresas não perdem de verdade. Valor de mercado pode ser recuperado. O prejuízo de fato fica nas mãos dos investidores, que podem ser tanto especuladores desalmados quanto cidadãos americanos que poupam para a aposentadoria, porque a bolsa de valores nos EUA é um instrumento de poupança. É por isso que, quando ações despencam dessa forma, geram a chamada "destruição de riqueza".
A imposição de tarifas apresentada como ferramenta do Maga (Make America Great Again, fazer a América grande outra vez) torna mais caros produtos importados de 184 países – tarifas foram impostas a 185, mas em um só existem pinguins e focas que, até onde sabe, não produzem para exportar. O primeiro resultado foi deixar a América ainda mais pobre: os EUA perderam, no dia seguinte ao tarifaço, todo um Reino Unido – o PIB do país é estimado em US$ 2,7 trilhões pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
E nesta sexta-feira (4), dia seguinte à quinta sangrenta, começaram as retaliações: a China anunciou que vai aplicar tarifa de 34% sobre todos os produtos americanos que entrarem no país, exatamente a mesma alíquota anunciada por Trump na quarta-feira (2). Se continuar assim, a tradição do 1º de abril terá de ser movida um dia adiante. Ou o 2 de abril poderá se tornar o "Ruination Day", como sugerido pela revista britânica The Economist.
A China marcou o início da vigência da nova alíquota para 10 de abril, cinco dias depois da entrada em vigor das chamadas "tarifas punitivas" dos EUA. Dá tempo para alguma negociação? Só se a dor de ver se evaporar 10% do PIB americano provocar algum efeito em Trump. Como logo depois de ver a sangria de US$ 2,9 trilhões ele afirmou que "vai tudo bem", essa conta também deve ter sido prevista pelos gênios que operam divisões "complexas" e taxam pinguins.
Os impactos possíveis
Antes do anúncio oficial, bancos, universidades e órgãos de financiamento de exportações fizeram projeções sobre o impacto do tarifaço de Trump. Cada um adotou um cenário diferente para o aumento das alíquotas.
1. Goldman Sachs, uma das maiores instituições financeiras dos EUA, com aumento de 15 pontos percentuais neste ano: aumento na probabilidade de recessão de 20% para 35%, alta no índice de inflação mais observado pelo Fed de 3,5% (a meta lá é de 2% ao ano).
2. Laboratório de Orçamento da Universidade de Yale, com elevação de 13% na tarifa efetiva dos EUA: aumento de preços entre 1,7% e 2,1%, redução entre 0,6 e 1 ponto percentual no PIB e perdas de US$ 1 mil a US$ 1,3 mil para as famílias americanas.
3. Instituto das Economias em Desenvolvimento, ligado à Organização de Comércio Exterior do Japão (Jetro, na sigla em inglês), com tarifas de 25% dos EUA: queda de 0,6% no Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2027 (perda de US$ 763 bilhões), puxado por tombo de 2,7% no PIB americano de 2027 e forte impacto nos lucros de empresas americanas que dependem de componentes chineses.
4. Universidade Aston (Reino Unido), com tarifas de 25% sobre todas as importações, seguidas de retaliações na mesma alíquota: perda de US$ 1,4 trilhão na economia mundial e drástica elevação de preços nos EUA. Teria efeitos semelhantes ao da guerra comercial de 1930 que aprofundou a Grande Depressão.