
Diagnosticada como um remédio para o baixo crescimento do Rio Grande do Sul, a diversidade da economia gaúcha está sob de ataque. O uso de herbicidas hormonais nas lavouras de soja afeta outras culturas, como uva, oliva e noz-pecã, por deriva. O problema é que o mais conhecido desses produtos, o 2,4-D, é transportado pelo vento por má aplicação.
Debatido há anos, o fenômeno da "deriva" enfrenta um momento crucial na quinta-feira (3), em audiência pública na Assembleia Legislativa. Dadas as circunstâncias, é difícil entender por que, até agora, ainda não há medidas mais efetivas para limitar esse prejuízo extra ao Estado. Embora algumas providências tenham sido tomadas para tentar reduzir o estrago, estão longe de ser suficientes.
O uso indiscriminado afeta até uma das grandes promessas de diversificação da atividade agroindustrial do Estado: o cultivo de oliveiras e a produção de azeite, justo quando o preço no mercado internacional faz valer o apelido de "ouro líquido" dado ao produto.
A vinícola Guatambu, de Dom Pedrito, na Campanha, estima prejuízo de R$ 24 milhões desde 2017. Quando chega às videiras, o 2,4-D, usado para eliminar uma erva daninha que afeta lavouras de soja, reduz a produtividade. Segundo o proprietário da Guatambu, Valter José Pötter, a vinícola perde até 40% da safra ao ano por efeito de deriva.
— Quem não tem condições está fechando. Parei de investir. Está estacionado o plantio de parreiras, não se planta mais um pé, não se investe mais em vinícola, em oliveiras, porque o prejuízo é grande. A diversidade de cultura está ameaçada — afirma Pötter.
O cultivo de azeitona, alerta o presidente do Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), Renato Fernandes, também enfrenta perdas. Conforme cálculo do Ibraoliva, há redução de até 50% em produção ao ano por deriva de 2,4-D.
— Não é só a questão de prejuízo financeiro, é cultural. É um problema recorrente dentro da fruticultura do Rio Grande do Sul, provocando até desistência. Possíveis investidores estão procurando áreas bem específicas longe de plantações de soja — diz Fernandes.
Para os produtores, a solução passa por aumentar a fiscalização e a punição a quem aplica o 2,4-D de forma equivocada. A coluna soube de um relato público feito por um vitivinicultor que tentou negociar com seus vizinhos, sem a necessidade de imposição legal, já que se trata de construir um Estado melhor para todos. A resposta foi, conforme essa exposição:
— Por que tu não fecha a vinícola?
Conforme a economista Juliana Trece, do FGV Ibre, que conduziu um estudo sobre a economia do Estado nos últimos anos, o Rio Grande do Sul cresce menos do que Santa Catarina por ter problema grave nas contas públicas – a pesada dívida que obrigou à adesão ao Regime de Recuperação Fiscal –, mas também por ser mais dependente da agricultura do que o Estado vizinho. Com riscos ambientais crescentes, a diversificação não é opção, é obrigação.
*Colaborou João Pedro Cecchini