
A incerteza diminuiu, mas não acabou. O "Dia da Libertação" de Donald Trump e Dia do Medo para o mundo, incluindo os Estados Unidos, veio com o anúncio de tarifas que vão da máxima de 49%, para o Camboja, a 10% para o Brasil e a maioria dos 185 países afetados pela medida – se algum ficou fora, é porque não apareceu no mapa (confira as listas aqui). Para efeito de cálculo de impacto, será um desafio gigantesco.
Um dos mistérios que ainda se mantêm é o cálculo feito pela Casa Branca sobre a alíquota média cobrada na compra de produtos americanos. Ninguém entendeu 39% como tarifa padrão cobrada pela União Europeia de produtos americanos importados. Nas "tábuas de tarifas" mostradas por Trump – que viraram memes –, está escrito que nessa apuração entrariam "manipulação do câmbio e barreiras comerciais".
O Brasil parece até ter sido bem tratado: economistas avaliam que “saiu barato”. Ficou na alíquota padrão, não entre os que enfrentarão “tarifas punitivas”, acima de 10%. Mas também não ganhou desconto. O próprio Trump repetiu que foi “gentil” com os países por não cobrar tarifa igual à média praticada em cada um. Então, não foi “gentil” com o Brasil.
No caso do Camboja, o “desconto” foi de quase 50%: segundo a Casa Branca, a média da alíquota praticada nesse país para produtos americanos é de 97%. E sempre é preciso lembrar: o Brasil tem déficit nas trocas com os EUA. Ou seja, se o discurso de Trump fosse levado a sério – ele diz que quem tem superávit como os EUA está "pilhando" o país – o Brasil é que seria o prejudicado. E também é preciso considerar que todos os produtos produzidos no Brasil e exportados para os Estados Unidos vão custar 10% a mais para os consumidores americanos. Isso pode prejudicar segmentos que disputam preços.
Uma expectativa do governo argentino não se cumpriu: o país vizinho vai ter exatamente o mesmo tratamento do Brasil e de outros 10 países sul-americanos. Até onde a coluna conseguiu checar, apenas a Nicarágua recebeu uma tarifa punitiva, de 18%.
Ao anunciar o tarifaço, Trump afirmou que o "2 de abril será para sempre lembrado como o dia em que a indústria americana renasceu". Para o mundo, será o dia em que um presidente da maior democracia liberal do mundo encerrou um capítulo da história, o do livre-comércio.
O presidente americano fez suspense. Como coadjuvante do anúncio, Trump levou um trabalhador na indústria automobilística da região de Detroit, onde se concentravam as montadoras americanas. Disse que "Brian" (o sobrenome não foi informado), que entende muito sobre o setor, ajudou o seu governo a desenhar as regras protecionistas que contrariam uma história secular do Partido Republicano. Vários colegas de Brian estavam sentados com os jornalistas na plateia.
Trump também confirmou a aplicação da tarifa de 25% para todos os automóveis importados a partir da zero hora da quinta-feira (3).
Os impactos possíveis
Antes do anúncio oficial, bancos, universidades e órgãos de financiamento de exportações fizeram projeções sobre o impacto do tarifaço de Trump. Cada um adotou um cenário diferente para o aumento das alíquotas.
1. Goldman Sachs, uma das maiores instituições financeiras dos EUA, com aumento de 15 pontos percentuais neste ano: aumento na probabilidade de recessão de 20% para 35%, alta no índice de inflação mais observado pelo Fed de 3,5% (a meta lá é de 2% ao ano).
2. Laboratório de Orçamento da Universidade de Yale, com elevação de 13% na tarifa efetiva dos EUA: aumento de preços entre 1,7% e 2,1%, redução entre 0,6 e 1 ponto percentual no PIB e perdas de US$ 1 mil a US$ 1,3 mil para as famílias americanas.
3. Instituto das Economias em Desenvolvimento, ligado à Organização de Comércio Exterior do Japão (Jetro, na sigla em inglês), com tarifas de 25% dos EUA: queda de 0,6% no Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2027 (perda de US$ 763 bilhões), puxado por tombo de 2,7% no PIB americano de 2027 e forte impacto nos lucros de empresas americanas que dependem de componentes chineses.
4. Universidade Aston (Reino Unido), com tarifas de 25% sobre todas as importações, seguidas de retaliações na mesma alíquota: perda de US$ 1,4 trilhão na economia mundial e drástica elevação de preços nos EUA. Teria efeitos semelhantes ao da guerra comercial de 1930 que aprofundou a Grande Depressão.