Um novo alerta da Petrobras sobre o risco de desabastecimento de diesel, menos de 15 depois do primeiro, acionou o sinal no mercado de novo reajuste no preço do combustível. No mercado, estima-se que o preço nacional esteja 23% abaixo da referência internacional.
Em comunicado divulgado na noite de quarta-feira (8) à noite, a estatal adverte que "em um cenário de escassez global, o abastecimento nacional requer uma atenção especial" e que "a prática de preços competitivos e em equilíbrio com o mercado é condição necessária para que o país continue sendo suprido sem riscos de desabastecimento pelos diversos agentes".
Não precisa nem ser bom entendedor, porque a estatal foi bem além das meias-palavras. O argumento é conhecido: "Como o país é estruturalmente deficitário em óleo diesel, tendo importado quase 30% da demanda total em 2021, poderá haver maior impacto nos preços e no suprimento. Esse quadro se acentua dado que o consumo nacional de diesel é historicamente mais alto no segundo semestre devido às sazonalidades das atividades agrícola e industrial. Ressalta-se, também, que o mercado interno registrou recorde de consumo de óleo diesel no ano passado e essa marca deverá ser superada em 2022".
E por que a Petrobras alerta só para o diesel, mas não fala em gasolina? Como a coluna já mostrou, a dependência de importação de gasolina no Brasil é menor do que no diesel. No ano passado, foi necessário trazer do Exterior cerca de 30% do diesel e apenas 9,6% de gasolina (os cálculos da coluna passam em alguns pontos percentuais dos da Petrobras).
Traduzindo, se o diesel nas refinarias da Petrobras ficar abaixo da média global, os importadores, que compram por esse valor de referência, não vão querer trazer o combustível porque teriam de vender com perdas. A estatal não consegue suprir essa falta porque não tem mais capacidade de refino.
No caso da gasolina, em tese, o volume importado, de menos de 10%, não representa ameaça de abastecimento. Em primeiro lugar, porque a alta de preços encolhe esse mercado de gasolina, porque há deslocamentos que podem ser evitados. Em segundo, ainda que falte gasolina, não teria o impacto do desabastecimento de diesel, que alimenta cerca de 60% do transporte de mercadorias no Brasil.
Também na quarta-feira (8), uma nova alta na cotação de petróleo foi atribuída a um comunicado do Departamento de Energia dos EUA sobre consumo acima da alta já esperada para a época. No final de maio, começou nos Estados Unidos a chamada "driving season", quando os americanos têm hábito de viajar de carro pelo país, aproveitando férias escolares. Isso significa que os estoques americanos vão diminuir, portanto que há menos disponibilidade.
Na manhã desta quinta-feira (9), a cotação tem até ligeira queda de 0,15% (sei, quase nada), mas está em US$ 123,40, acima dos patamares dos dois últimos meses. Nesta semana, o Monitor de Combustíveis do banco Modal trouxe um "alerta de trigger (gatilho)", ou seja, indicou que uma nova alta de combustíveis é bastante provável. Diz a nota do monitor:
"Estimamos a defasagem da gasolina de octanagem 87 em 25,47%, ultrapassando o maior trigger de alta registrado desde abril/2021, ocorrido em início de março/2022. Na nossa leitura, o atual nível de defasagem aumenta substancialmente o risco de novos reajustes para cima nos preços dos combustíveis pela Petrobras. E a do diesel está em 23,08%."
A íntegra da nota
"Esclarecimento da Petrobras sobre a prática de preços de mercado e a garantia do abastecimento nacional
A Petrobras reitera o seu compromisso com a prática de preços competitivos e em equilíbrio com o mercado global, necessária para a garantia do abastecimento doméstico.
Assim como qualquer outra commodity comercializada em economia aberta, a precificação de combustíveis no Brasil é determinada pelo balanço de oferta e demanda global, uma vez que produtos desta natureza possuem características físicas homogêneas e são produzidos, transportados e comercializados em larga escala por todo o mundo, tendo múltiplos ofertantes e demandantes.
De acordo com a Lei nº 9.478/1997, alterada pela Lei nº 9.990/2000, desde 1º de janeiro de 2002, vigora no Brasil o regime de liberdade de preços em todos os segmentos do mercado de combustíveis e derivados de petróleo: produção, distribuição e revenda. Assim, cabe a cada agente econômico estabelecer suas margens de comercialização e seus preços de venda, em um cenário de livre concorrência. A Petrobras não atua no segmento de distribuição e revenda, sendo responsável apenas pela produção de combustíveis.
Preços alinhados ao valor de mercado estimulam a produção e a concorrência no presente, assim como fomentam os investimentos que contribuirão para a expansão do volume produzido, para o alcance da qualidade exigida para os produtos, e para incremento da capacidade logística, com benefícios diretos ao consumidor. Por outro lado, preços abaixo do mercado inviabilizam economicamente as importações necessárias para complemento da oferta nacional. Exemplos recentes de desalinhamento aos preços de mercado já se traduzem em problemas de abastecimento em países vizinhos ao Brasil.
A Petrobras adota uma dinâmica que propicia um equilíbrio com o mercado, mas evitando o repasse imediato da volatilidade das cotações internacionais e da taxa de câmbio ocasionadas por questões conjunturais para os preços domésticos.
A Petrobras não é a única supridora de combustíveis no Brasil. Não há monopólio. Sem a prática de preços de mercado, não há estímulo para o atendimento ao mercado brasileiro pelos diversos agentes do setor.
Dessa forma, a prática de preços competitivos e em equilíbrio com o mercado é condição necessária para que o país continue sendo suprido sem riscos de desabastecimento pelos diversos agentes.
Neste ponto, é importante ressaltar que o mercado global de energia está atualmente em situação desafiadora. Com a aceleração da recuperação econômica mundial a partir do segundo semestre de 2021 e, notadamente, com o início do conflito no Leste Europeu em fevereiro de 2022, tem-se observado aumento dos preços e maior volatilidade nas cotações internacionais de commodities energéticas, em especial, do óleo diesel.
Essa conjuntura reflete, principalmente, a menor oferta global de diesel frente à demanda presente, assim como as incertezas relacionadas ao futuro balanço desse mercado. Como consequência, os estoques de diesel nos principais mercados internacionais exibiram declínio acentuado nos últimos meses.
Existe a possibilidade de o mercado global de óleo diesel ficar mais pressionado nos próximos meses, em função de: (i) aumento sazonal da demanda mundial no segundo semestre; (ii) menor disponibilidade de exportações russas pelo prolongamento e agravamento de sanções econômicas ao país; e (iii) eventuais indisponibilidades de refinarias nos Estados Unidos e Caribe com a temporada de furacões de junho a novembro. Portanto, não há fundamentos que indiquem a melhora do balanço global e o recuo estrutural das cotações internacionais de referência para o óleo diesel.
Em um cenário de escassez global, o abastecimento nacional requer uma atenção especial. Como o país é estruturalmente deficitário em óleo diesel, tendo importado quase 30% da demanda total em 2021, poderá haver maior impacto nos preços e no suprimento. Esse quadro se acentua dado que o consumo nacional de diesel é historicamente mais alto no segundo semestre devido às sazonalidades das atividades agrícola e industrial. Ressalta-se, também, que o mercado interno registrou recorde de consumo de óleo diesel no ano passado e essa marca deverá ser superada em 2022.
Diante desse quadro, é fundamental que a prática de preços competitivos e em equilíbrio com o mercado global seja referência para o mercado brasileiro de combustíveis, visando à segurança energética nacional".
A política de preços da Petrobras
Para reajustar o preço nas refinarias, a Petrobras adota um cálculo chamado Paridade de Preços de Importação (PPI), adotado em 2016, no governo Temer. A intenção é evitar que a estatal acumule prejuízo com por não repassar aumentos de produtos que compra do Exterior, tanto petróleo cru quanto derivados, como a gasolina. A fórmula inclui quatro elementos: variação internacional do barril do petróleo — com base no tipo brent, que tem preço definido na bolsa de Londres —, cotação do dólar em reais, custos de transporte e uma margem definida pela companhia, que funciona como um seguro contra perdas.