
Adeptos de Jair Bolsonaro (PL) reagiram com um otimismo quase eufórico a falas de três integrantes do Supremo Tribunal Federal, que decide nesta quarta-feira (26) se o ex-presidente e dezenas que integraram seu governo se tornarão réus por tentativa de golpe de Estado. É que o ministro do STF Luiz Fux criticou o fato de o tenente-coronel Mauro Cid (ex-ajudante de ordens de Bolsonaro) ter prestado nove depoimentos, na colaboração premiada em que confirma detalhes de planos golpistas. Ele diz ter dúvidas sobre "a legalidade e a eficácia" dessas delações. Posição parecida, embora menos enfática, foi adotada pelos também ministros Cristiano Zanin e Cármen Lúcia.
Só que as delações de Cid, uma espécie de "faz-tudo" de Bolsonaro, são apenas uma parte dos elementos que compõe a denúncia de golpismo. Vamos recordar aqui indícios que pesam contra o ex-presidente e seus principais assessores:
Planos de assassinatos
A Polícia Federal encontrou no computador do general Mário Fernandes (um dos mais fieis auxiliares de Jair Bolsonaro e Braga Netto) um arquivo chamado "Punhal Verde Amarelo", cujo conteúdo teria sido impresso no Palácio do Planalto após a derrota bolsonarista nas urnas. Conforme a investigação, era um plano de sequestro e possível assassinato do ministro Alexandre de Moraes e de assassinato do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e do vice-presidente Geraldo Alckmin. Com relação a Lula, o arquivo cita a possibilidade de "envenenamento ou uso de química / remédio que lhe cause um colapso orgânico". O documento também tinha diversos detalhes de como seria sua execução, incluindo armas que seriam utilizadas, como uma metralhadora e um lança-granadas.
Monitoramento de ministros e políticos
A PF assegura que um grupo de oficiais das Forças Armadas e policiais teria seguido autoridades, com vistas a vigilância, mas também possível sequestro e assassinato. Entre os alvos estavam o ministro do STF Alexandre de Moraes, Lula e Alckmin. A investigação aponta também que um dos que foi seguido, mas para verificar com quem se encontrava e se era fiel a Bolsonaro, é o então vice-presidente Hamilton Mourão.
Pressão aos comandantes das Forças Armadas
Oficiais superiores das Forças Armadas assinaram uma carta na qual conclamam os comandantes a tomarem atitudes contra o que consideravam fraude no processo eleitoral. Como os chefes do Exército e Aeronáutica se negaram a aderir a essa proposta, foram atacados de forma sistemática nas redes sociais. Em conversa de WhatsApp interceptada pela Justiça, o candidato a vice-presidente de Bolsonaro, Walter Braga Netto, determina a um subordinado que hostilize o comandante do Exército, general Freire Gomes:
"Oferece a cabeça dele. Cagão. Inferniza a vida dele e da família. E senta o pau no Batista Junior (comandante da Aeronáutica)", diz a mensagem.
Minuta golpista
Bolsonaro teria recebido e endossado uma minuta em que o Presidente da República decreta Estado de Defesa em Brasília, com o objetivo de garantir lisura no processo eleitoral. O mecanismo permite prisões "a quem representar ameaça à ordem publica e a paz social". O documento teria sido elaborado no Palácio do Planalto e foi apreendido com assessores presidenciais. O próprio ex-presidente não negou ter discutido o conteúdo ali exposto. Os seus comandantes do Exército e da Aeronáutica confirmam, em depoimento, que Bolsonaro propôs essa atitude drástica, considerada por ambos um passo decisivo para a "ruptura democrática".
Estímulo a manifestações e bloqueios de rodovias
A denúncia contra o círculo mais próximo de Bolsonaro garante que diversos colaboradores planejaram, estimularam e foram decisivos para que manifestantes inconformados com a vitória de Lula nas eleições bloqueassem estradas, logo após o resultado das urnas. Além disso, teriam estimulado a permanência de manifestantes de extrema direita em frente a quartéis, pedindo golpe de Estado, por meses. Entre os indícios apresentados pela PF estão conversas de WhatsApp e Telegram trocadas na cúpula bolsonarista e interceptadas.
Como se vê, mesmo que a delação de Cid seja desconsiderada pelos ministros do STF, existem muitos outros elementos que pesam no julgamento de Bolsonaro e seu círculo de poder, que agora se inicia.