
Pela importância e grandeza do Rio Grande do Sul, o governo do estado merece contar com um avião mais moderno, capaz de atender não apenas aos deslocamentos do governador, mas também de auxiliar em demandas essenciais nas áreas de Saúde, Segurança Pública e Defesa Civil.
Por isso, não há nada de absurdo na intenção de renovar a frota aérea estadual, atualmente composta por dois turboélices: um monomotor Caravan e um bimotor King Air. Não se trata de um "luxo injustificável", como classifica o deputado Felipe Camozzato (Novo), nem do "novo brinquedinho" de Eduardo Leite, na avaliação do ex-deputado Onyx Lorenzoni (PL).
O problema está no contexto social e econômico. Não faz sentido investir em um jato executivo enquanto milhares de gaúchos ainda lutam para reconstruir suas casas, suas vidas e seus negócios destruídos pela enchente histórica do ano passado. Diante desse cenário, comprar uma nova aeronave não é prioridade — ainda mais considerando a possibilidade de utilizar recursos do Funrigs, criado "para o enfrentamento das consequências sociais, econômicas e ambientais decorrentes dos eventos climáticos ocorridos em 2023 e 2024", conforme explica o portal oficial rs.gov.br.
A oposição estima que o gasto pode chegar a R$ 200 milhões, enquanto o governador afirma que será bem menos, em torno de R$ 90 milhões. Seja qual for o valor, trata-se de dinheiro público que deveria ser direcionado para os municípios devastados pela catástrofe climática.
A proposta é incentivada pela Secretaria da Saúde, sob a justificativa de que um meio de transporte mais rápido permitiria a realização de mais transplantes. Sem dúvida, o argumento é nobre, mas, na prática, a questão não é tão simples. Doadores surgem quando menos se espera. Para garantir a agilidade desejada, o avião precisaria estar permanentemente à disposição da Saúde, o que não acontecerá.
Diante do exposto, a ideia pode ser válida em outro momento, quando o Estado estiver financeiramente e socialmente estabilizado. Agora, é uma decisão difícil de justificar. Como em qualquer orçamento doméstico, às vezes, é preciso adiar gastos, mesmo que sejam legítimos, para priorizar o que é mais urgente. No caso, não há nada mais imediato do que a recuperação do Rio Grande do Sul. Que Eduardo Leite abandone esse "sonho de Ícaro" e mantenha os pés firmes no chão, onde as necessidades do povo gaúcho realmente estão.