
Os policiais militares do Rio Grande do Sul trabalham desde julho de 2023 fazendo uso do mesmo fardamento. O conjunto é integrado por apenas uma calça e duas gandolas, item do vestuário da parte superior do corpo. Desde então, o contrato da fornecedora se encerrou e os uniformes dos servidores da Brigada Militar (BM) não foram trocados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP). Os profissionais estão há quase dois anos usando, nas jornadas de trabalho, a mesma farda.
A associação que representa soldados, sargentos e tenentes afirma que a maior dificuldade é dispor de apenas uma calça. Isso já teria levado policiais a improvisarem costuras em rasgos ou a comprarem novas peças com recursos próprios.
— Alguns adquiriram por fora, contrariando a orientação da instituição — comenta Maico Primaz Volz, presidente da Associação Beneficente Antonio Mendes Filho dos Servidores de Nível Médio da Brigada Militar e do Corpo de Bombeiros Militar do RS (Abamf).
A polêmica teve origem nesta quinta-feira (3), no comentário do jornalista e escritor Fabrício Carpinejar no programa Gaúcha Hoje, da Rádio Gaúcha. O comunicador informou que o fardamento dos policiais militares não era renovado desde meados de 2023.
O secretário da Segurança, Sandro Caron, entrou ao vivo na emissora e, inicialmente, disse que a informação "não procedia". Logo depois, contudo, confirmou que a última entrega havia acontecido em julho de 2023.
Na entrevista, Caron afirmou que uma licitação foi aberta para contratar nova fornecedora. Segundo nota da SSP enviada a Zero Hora na tarde desta quinta, o edital foi lançado em abril de 2024.
O processo foi encerrado em dezembro do ano passado, com assinatura de contrato e emissão de ordem de início para a produção. Os novos uniformes serão entregues em junho e agosto de 2025, informou Caron na entrevista. Considerando os prazos, o uso do vestuário atual irá completar dois anos.
A demora na conclusão da licitação, disse Caron, aconteceu em função da desclassificação de empresas concorrentes que não atenderam às especificidades técnicas exigidas para a confecção da farda.
Em comunicado divulgado no final da tarde, o Palácio Piratini informou ter investido R$ 16,67 milhões em fardamentos para a BM e outras forças de segurança, Polícia Civil (PC), Corpo de Bombeiros Militar (CBM) e Instituto-Geral de Perícias (IGP).
A licitação lançada no ano passado abriu a possibilidade de aquisição de 10 mil conjuntos novos, dos quais cerca de 6 mil serão entregues em junho e os 4 mil restantes, em setembro.
Além dos fardamentos, o governo projeta adquirir equipamentos de proteção individual, aparelhos tecnológicos e veículos.
Calças a R$ 250 em lojas
Conforme o relato do presidente da Abamf, a maior dificuldade da tropa, no quesito fardamento, é lidar com o fornecimento de apenas uma calça. Maico Primaz Volz narra que, ao encaminharem pedido de substituição na Brigada Militar, agentes teriam se deparado com ausência de estoque para repor.
O dirigente afirma que o modelo de uniforme usado desde julho de 2023 passou a ser encontrado para venda em lojas de artigos militares somente em períodos recentes. A peça custa cerca de R$ 250.
— Antes, era difícil achar. Agora, começaram a oferecer nas lojas — conta o presidente da Abamf.
Outra dificuldade cotidiana mencionada é a necessidade de lavar e secar a peça entre uma e outra jornada de trabalho. O presidente da Abamf considera que o ideal seria garantir para cada policial militar o mínimo de duas peças por item da farda, com troca uma vez por ano.
— Também seria importante ter estoque para reposição imediata em caso de dano em atendimento de ocorrência — diz Volz.
Em nota, a Brigada Militar negou que tenha faltado reposição de farda nesses casos. "Todo policial militar que sofrer dano ou extravio tem assegurada a substituição do fardamento", diz o comunicado.