
Uma sequência de cenas traumatizantes. Foi isso que o motorista de aplicativo André da Rosa dos Santos, 39 anos, relata ter vivido na noite de 7 de janeiro deste ano. Depois de aceitar uma corrida do bairro Lajeado até o bairro Restinga, ambos na zona sul da capital, ele foi surpreendido ao descobrir que os dois passageiros que levava estavam sendo atraídos para uma emboscada.
Ao chegar no local marcado na plataforma, o carro de Santos foi cercado e criminosos balearam os dois passageiros, que morreram no local. O motorista também acabou sendo baleado nas costas e, momentaneamente, ficou sem sentir as pernas.
Conforme a polícia, o motivo seria disputa entre facções. Na semana passada, dois homens suspeitos de envolvimento no crime foram presos. Um deles seria o atirador. Um terceiro envolvido é procurado.
— No momento dos tiros, antes de eu tentar refletir o que estava acontecendo, eu senti que tinha sido baleado, porque eu senti minhas costas queimando. E em seguida as minhas pernas, da cintura para baixo, adormeceram, não tinha força nenhuma — conta.
Mesmo com a falta de movimento nos membros inferiores, ele afirma que só pensava em permanecer vivo e conseguir sair com o veículo.
— Engatei a marcha do carro, botei a perna direita em cima do acelerador e fui apertando com a mão e vi que o carro ia se movimentar, embalei ele e segui em direção ao hospital. Dirigi sem sentir as pernas — lembra o motorista.
Ele conseguiu levar o veículo até o Hospital da Restinga (HRES), onde recebeu os primeiros socorros. Depois, foi transferido para o Hospital de Pronto Socorro (HPS).
Uma semana hospitalizado
A bala atingiu um dos pulmões, o fígado e três costelas. Santos ficou uma semana hospitalizado. E depois teve um longo período de recuperação em casa. Ficou mais de um mês sem poder trabalhar.
— Hoje eu sinto um formigamento na sola dos dois pés, que é o que ficou — conta.
O morador de Porto Alegre disse que agarrou-se à fé, apesar de não se considerar uma pessoa religiosa.
— Eu não sigo nenhuma religião, mas eu procuro ser muito espiritualizado, eu tenho muita fé em Deus. Eu disse "Jesus, não me deixa morrer aqui, eu tenho duas filhas, o Senhor sabe disso, preciso criar elas e me salvar" — afirma.

Segunda chance
O motorista sempre foi um apaixonado por carros. E encontrou na profissão de motorista de aplicativo uma maneira de se manter mais próximo dos automóveis. Em dezembro do ano passado, juntou as economias e comprou um carro elétrico para trabalhar, visando uma economia no combustível.
Mesmo ainda sentindo dores nas costas, ele voltou ao trabalho. Precisa quitar duas parcelas do veículo que estão em atraso, além de outras contas acumuladas no tempo parado.
As marcas do susto ainda são visíveis no veículo. O vidro traseiro quebrou com os tiros. Uma bala também atingiu uma barra de ferro no banco traseiro. E o rastro do tiro que atingiu André também ficou marcado entre o lugar do motorista e o apoio central para os braços.
Depois do susto, André mantém a fé e acredita ter recebido uma "segunda chance" da vida.
— É uma coisa inexplicável, sabe? Porque o cara lá de cima é tão bom com a gente, ele me trouxe de volta. Eu nunca perdi a fé. E graças a Ele estou aqui de novo, podendo dar sequência na minha vida, criar minhas filhas, ter o gosto de ver elas crescerem. Poder viver, tendo saúde, e acompanhar quem a gente ama. Não tem coisa mais importante no mundo — afirma.
Suspeitos foram presos
No local do crime, duas câmeras de segurança registraram toda a ação. É possível ver os criminosos abordando um veículo que suspeitaram ser o que esperavam. Ao não encontrar os passageiros, liberam o carro.
Santos chega na sequência e é cercado por outro automóvel. Os homens descem e vão em direção ao carro, um dos passageiros desce e entra em luta corporal com o atirador. O outro passageiro estava armado e também foi baleado na troca de tiros.
Cerca de três meses depois do crime, na semana passada, a Polícia Civil prendeu dois homens suspeitos de envolvimento no crime. Um deles seria o atirador.
Segundo a investigação, o crime foi motivado por disputa de facções criminosas e apenas um dos passageiros era o alvo. Mas o outro também foi atingido quando os criminosos notaram que ele estava armado.
— Os suspeitos teriam feito uma espécie de tocaia, criado uma história para atrair a vítima, que era de uma organização criminosa rival que atuava no tráfico de drogas no bairro Restinga. Então, já sabendo que aquela vítima estaria sendo atraída, os criminosos ficaram aguardando — explica o delegado Arthur Raldi, titular da 16ª delegacia da Polícia Civil, responsável pela investigação, que continua:
— Encontrando a vítima, o criminoso começou a disparar, a vítima do lado do alvo principal estava armada e o criminoso percebeu, motivo pelo qual ele também foi alvejado. O motorista do aplicativo, que não era um alvo, acabou sendo baleado.
Durante a operação, a polícia cumpriu dois dos três mandatos emitidos pela Justiça. A busca pelo terceiro suspeito de envolvimento no crime.