
Aos seis anos, Francisco Kaiut foi atingido por um tiro acidental disparado por um primo, da mesma idade. A bala acertou a cabeça do fêmur do menino. Conforme foi crescendo, passou a conviver com dores crônicas por conta do ferimento, o que o impedia de executar os movimentos da yoga convencional.
Em busca de sanar o seu sofrimento, Francisco foi se envolvendo com várias terapias naturais, dos mais variados lugares do mundo. Dedicou a vida a encontrar uma solução para a sua situação e a de outras pessoas que estavam na mesma, sem poder praticar yoga por conta de dores.
Francisco, que é de Curitiba, no Paraná, debruçou-se sobre a área de saúde natural, estudando e desenvolvendo ideias sobre a yoga, adaptando a prática para pessoas com dificuldades ou restrições físicas. Idealizou, então, seu próprio método, o Kaiut Yoga, que abraçava não apenas as pessoas com processos traumáticos.
— Acabei entendendo que era exatamente o que o ser humano moderno precisava, por conta do estilo de vida, do estresse, das grandes cidades, da vida moderna, do uso tão presente da cadeira na nossa vida e no nosso desenvolvimento físico, estrutural. Acabei achando que deveria criar um jeito moderno de se fazer yoga — explica Francisco.
Mas, afinal, qual é o diferencial do método Kaiut? Segundo Francisco, após pesquisar as consequências no corpo humano de tanto tempo sentado em cadeiras, trabalhando, a ajuda vem da conexão com a ancestralidade.
— Atualmente, temos, já aos 20 anos, degeneração articular de tórax quase que como uma regra, além de uma taxa de gordura total e visceral muito alta, o que é um indício tanto de inflamação quanto de perda de vitalidade. Estamos muito distantes dos nossos ancestrais e nós vemos a nossa vida como muito confortável, mas isso não quer dizer que estejamos bem.
A Kaiut Yoga utiliza o chão e a parede como recursos de trabalho, com os praticantes repetindo movimentos milenares, colocando o seu corpo como os ancestrais: deitando no solo, sobre um fino tapete, para que, segundo Francisco, desenvolva-se uma mobilidade no tórax e uma qualidade de densidade óssea alta por conta desse contato duro com a superfície.
— Hoje, nós temos os colchões da NASA e dormimos mal. E é muito comum você ouvir falar de uma pessoa no início da terceira idade que quebrou uma costela tossindo ou espirrando. Este é o nosso grau de fragilidade. Então, o nosso uso do chão tem um propósito: o resgate da rusticidade da nossa natureza. As nossas aulas são de pouco movimento, mas de muita sensação e de muita intensidade.

Francisco destaca que as posições são, de certa forma, o resgate da "nossa dinâmica de uso ancestral do corpo". O criador, que consolidou seu método há 20 anos, explica:
— A gente vai fazer a senhorinha de 85 anos sentar no chão, sair do chão, ajoelhar no chão, sentar de pernas cruzadas, ficar de cócoras, exatamente como era há alguns milhares de anos. Há milhares de anos, para funcionar o intestino, as pessoas ficavam de cócoras todos os dias. É o resgate de uma disponibilidade de corpo. O que eu quero é que meu aluno tenha de volta essa potência natural que vem de um uso ancestral do corpo.
Francisco, hoje com 53 anos, vive e trabalha em São Paulo, onde tem a sua escola principal. Porém, há 22 espaços licenciados pelo Brasil e pelo mundo. Ele afirma serem mil professores aptos, que são preparados com aulas em sua plataforma, e 50 mil alunos ativos.

Em solo gaúcho
No Rio Grande do Sul, existem cinco escolas. Elas estão em São Francisco de Paula, Doutor Maurício Cardoso, Gramado, Caxias do Sul e Porto Alegre. Esta última fica na Rua Hilário Ribeiro, no bairro Moinhos de Vento, e é coordenada pela médica Luciana Costa que, assim como Kaiut, sofria de dores crônicas. Ao procurar por soluções, encontrou o método. E, ao ouvir o criador em uma palestra, notou que era por este caminho que deveria seguir.
Eis que a endocrinologista, então, tornou-se instrutora de yoga — ou uma "professora pela dor". Ela montou, em 2018, a sua escola licenciada e, hoje, ao lado da sócia Ana Cláudia Costa, conta com cerca de cem alunos, mas afirma que 500 já passaram pela escola.
— Mais da metade dos meus alunos está aqui há cinco anos, fazendo aula quase todos os dias. E tenho alunos entre 25 e 92 anos, que mantêm o método como uma prática de autocuidado, o que auxilia em uma redução de medicamentos, não só da dor, mas de doença metabólica, com um resultado muito bom para diabetes. Também há redução de questões emocionais, como ansiedade e depressão, além de ser um tratamento incrível para a fibromialgia — salienta.
Luciana, hoje com 56 anos, garante que a prática mudou o seu modo de vida:
— No meu caso, passei a andar de stand up paddle com 54 anos, passei a fazer trilha com 55. É o resgate de um conceito que a gente, na nossa sociedade ocidental, colocou: "Não, aos 60 não se faz mais isso. Aos 70, não se faz mais aquilo". Não, a gente pode fazer o que gosta até o último dia, mas precisamos manter a mobilidade.
Francisco estará na escola de Porto Alegre, neste sábado (5), a partir das 14h, para autografar o seu primeiro livro, Viagem ao Coração da Dor (Editora Casa Flutuante). Haverá um bate-papo com Luciana sobre o método Kaiut.