
Nos primeiros meses da pandemia de coronavírus no Rio Grande do Sul, milhares de moradores das principais cidades gaúchas decidiram pegar a estrada em busca de um ambiente menos povoado e com mais espaço ao ar livre. O Litoral Norte foi a região preferencialmente escolhida como refúgio por quem tentava escapar das garras invisíveis da nova doença.
Passados cinco anos desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a covid-19 como uma ameaça global, boa parte desses novos moradores decidiu seguir vivendo à beira-mar, embora outra parcela tenha resolvido fazer o caminho de volta para suas antigas moradias.
Uma estimativa da Associação de Corretores e Imobiliárias de Capão da Canoa (Acica) feita em parceria com as associações de Comércio e Indústria (Acicc), e dos Construtores e Incorporadores (Associc) do município, além do Sindicato das Indústrias da Construção Civil no Litoral Norte (Sinduscon-Litoral Norte), indica que cerca de 60% das pessoas que se mudaram para a costa gaúcha ao longo do período mais agudo de contaminações resolveram ficar, enquanto 40% retornaram.
— Muitas pessoas adaptaram sua vida, passaram a trabalhar em home office ou se dirigem em alguns dias da semana para a região de Porto Alegre, mantendo o Litoral como endereço residencial, seja em condomínios fechados, casas ou apartamentos. Muita gente não acreditava que conseguiria trabalhar fora da Região Metropolitana, mas descobriu, pela necessidade, que era possível — analisa o presidente da Acica, Jonas Inácio.
Aumento no número de matrículas nas escolas
O número de matrículas de alunos na Educação Básica fornece mais algumas pistas sobre o movimento migratório dos gaúchos ao longo desse período, como um indicador da menor ou maior presença de famílias com crianças e adolescentes na região.
Um levantamento da quantidade de estudantes registrados, com base no Censo Escolar realizado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep), mostra que o contingente de matrículas desde a creche até o Ensino Médio em Capão da Canoa e Tramandaí cresceu de 16,1 mil em 2020 para 16,5 mil no ano seguinte e superou 17 mil em 2022 — ano em que a doença passou a refluir no Estado.
A partir daí, a cifra recuou para 16,8 mil em 2023 e 16,7 mil no ano passado, sugerindo uma menor demanda por vagas depois do auge da crise sanitária, mas ainda acima do que foi verificado no começo da pandemia.
Para o presidente da Associação das Imobiliárias e Corretores de Imóveis de Tramandaí e Imbé e diretor do Creci-RS, Thiago Kury, o fluxo de novos residentes ao longo dos últimos anos provocou mudanças perenes na faixa litorânea:
— A pandemia acelerou a mudança cultural de que o Litoral é somente no verão. Impactou investimentos em infraestrutura e chegada de novas empresas, fomentando a economia. Muitos negócios vieram para a região e, consequentemente, muitos profissionais se mudaram com suas famílias como médicos, advogados, engenheiros, arquitetos e prestadores de serviços. Hoje, temos hospitais, escolas, grandes redes supermercadistas.
Lindemann e Gislaine ficaram pela qualidade de vida

Ainda no começo da pandemia, em junho de 2020, o supervisor de segurança Faruk Lindemann, 42 anos, decidiu deixar o emprego, a casa e a rotina de duas décadas como morador de Nova Santa Rita, na Região Metropolitana, para começar uma nova vida no Litoral Norte — mesmo sem trabalho garantido.
A mudança era um desejo antigo acalentado por ele e pela mulher, Gislaine Terezinha Chiabotto Adolpho, 48 anos. O avanço imparável do novo vírus foi o que acabou forçando uma decisão antes do previsto.
— A covid-19 acabou sendo o motivo que faltava. No início, alugamos um apartamento pensando em ficar por uns dois anos, para ver como seria a experiência. Acabamos ficando e, hoje, não temos mais planos de retornar — conta Lindemann, que se mudou para Capão da Canoa ao lado da mulher e do filho Brayan Adolpho Lindemann, 17 anos.
O ar é mais limpo, e à noite sempre é mais fresco
FARUK LINDEMANN
Supervisor de segurança que se mudou com a esposa e o filho para Capão da Canoa
O supervisor de segurança acabou encontrando trabalho na mesma área em que atuava, com um salário melhor e mais qualidade de vida.
— Minha esposa tem uma doença cardíaca, e consideramos que temos um melhor atendimento aqui pelo SUS. Os atendimentos no posto 24h e no hospital são mais rápidos, assim como os exames que ela precisa fazer. Além disso, a gente caminha todo dia na praia, toma chimarrão. O ar é mais limpo, e à noite sempre é mais fresco — complementa Lindemann.
Káli e Gustavo voltaram pela falta de companhia

No mesmo período em que a família de Lindemann rumava para Capão da Canoa, o casal formado pela aposentada Káli de Souza, 61 anos, e pelo empresário Gustavo Fonseca, 65 anos, seguia para Xangri-lá a fim de buscar um refúgio mais seguro contra a proliferação da covid-19 e oferecer mais espaço para os quatro animais de estimação — dois cães e dois gatos.
A vontade de ficar no Litoral levou os dois a se mudar para uma casa ainda melhor, de dois pisos, na praia de Atlântida, no começo de 2021. Naquele momento, a vizinhança estava repleta.
— A praia era como se fosse a cidade, todos os nossos amigos estavam por aqui — recorda Káli.
Como a maior parte dos nossos amigos já tinha retornado, começamos a pensar em voltar também
KÁLI DE SOUZA
Aposentada que se mudou para Atlântida na pandemia com o marido
Com o passar dos meses e o arrefecimento da doença, parte dos vizinhos começou a tomar a freeway de volta para a região da Capital. Aos poucos, um sentimento de solidão foi invadindo os cômodos da ampla casa de alvenaria.
— O inverno de 2022 foi frio, chuvoso, era difícil até sair para pedalar ou passear com o cachorro. Como a maior parte dos nossos amigos já tinha retornado, começamos a pensar em voltar também — conta Káli.
Dos quatro animais, apenas dois ainda dividiam a casa litorânea: o cão Tito, 16 anos, com a saúde debilitada e problemas na coluna, e o gato Pepeu. Voltaram para Porto Alegre depois do verão seguinte. Mudaram-se em seguida para Eldorado do Sul, onde acabaram afetados pela enchente de maio do ano passado. Superada mais essa dificuldade, agora costumam passar as temporadas de veraneio em Atlântida, mas, assim que o sol enfraquece, voltam para casa na Região Metropolitana.