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Autoridades de saúde e especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) investigam um grupo de doenças misteriosas na República Democrática do Congo, na África. Condições causaram ao menos 60 mortes desde o início do ano.
"A República Democrática do Congo está enfrentando muitas crises e surtos simultâneos, colocando ainda mais pressão sobre o setor de saúde e a população", escreveu o órgão em nota publicada nesta quinta-feira (27). O comunicado indica que a chamada "doença misteriosa do Congo" pode, na realidade, ser um conjunto de diferentes condições de saúde.
Os sintomas incluem febre hemorrágica, dores musculares, vômito e diarreia. Na maioria dos casos, que ocorreram em províncias do noroeste do Congo, o intervalo entre o início dos sinais e o óbito foi de 48 horas.
O que se sabe sobre as doenças misteriosas no Congo
Veja quais informações já se sabe sobre o conjunto de diferentes condições de saúde no país africano:
Quantos surtos foram registrados?
Segundo a OMS, desde o início de 2025, uma série de doenças e mortes afetaram a província de Equateur, no noroeste do Congo.
O primeiro surto foi na vila de Boloko, onde três crianças com menos de cinco anos morreram entre 10 e 13 de janeiro, 48 horas após comerem um morcego, conforme o Estadão. O balanço publicado pela OMS nesta quinta-feira ressalta que, ao total, a zona de saúde de Bolamba, que engloba a vila de Boloko, registrou 12 pessoas doentes e oito mortes em janeiro.
Depois, no início de fevereiro, a OMS registrou 158 casos e 58 mortes na zona de saúde de Basankusu. Na mesma região, surgiram outros 141 relatos de pessoas doentes na última semana, sendo considerado um novo surto, sem mortes relatadas.
Os dois locais estão a cerca de 180 quilômetros de distância um do outro, e a mais de 300 quilômetros da capital provincial, Mbandaka.
Quantas pessoas foram afetadas?
Com os esforços de investigação e aumento na fiscalização, a OMS identificou 1.096 pessoas doentes e 60 mortes nas duas aldeias da província de Equateur, no noroeste do país africano, por conta das doenças misteriosas.
Para analisar os casos e chegar ao número atualizado, divulgado nesta quinta-feira, a OMS considerou uma ampla definição das condições com base nos sintomas registrados.
Quais os sintomas?
De acordo com a OMS, os quadros incluem sintomas como febre, dor de cabeça, calafrios, suor, rigidez no pescoço, dores musculares, dores em várias articulações e dores no corpo, coriza ou sangramento pelo nariz, tosse, vômito e diarreia.
O que as autoridades estão fazendo?
Na nota publicada nesta quinta-feira, a OMS enfatizou as ações tomadas para apurar e tratar os casos relatados. Estão trabalhando na operação mais de 80 agentes comunitários de saúde treinados para detectar e relatar casos e mortes por doenças como essas.
Uma equipe nacional de resposta rápida de Kinshasa e Equateur, incluindo especialistas em emergências de saúde da OMS, foi enviada às zonas de saúde de Basankusu e Bolomba para investigar a situação e determinar se há um padrão incomum.
"Os especialistas estão intensificando a vigilância de doenças, conduzindo entrevistas com membros da comunidade para entender o contexto e fornecendo tratamento para doenças como malária, febre tifoide e meningite", declarou o órgão.
Pelos sintomas, autoridades de saúde consideraram a possibilidade das condições misteriosas serem, na verdade, casos de Ebola, malária ou a doença do vírus Marburg. A OMS afirma que testes foram realizados para investigar melhor a possibilidade e para tentar encontrar a origem dos surtos.
"Cerca de metade das amostras testaram positivo para malária, que é comum na região. Mais testes serão realizados para meningite. Amostras de alimentos, água e ambiente também serão analisadas, para determinar se pode haver contaminação. As várias amostras serão enviadas para mais testes no laboratório nacional de referência em Kinshasa. Amostras anteriores não foram viáveis e novos testes foram realizados", pontuou.
Existe a possibilidade de chegar no Brasil?
Eduardo Sprinz, médico infectologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), fala sobre o risco dos casos se espalharem internacionalmente e chegarem ao Brasil.
— Sempre existe a possibilidade, mas se essa for uma doença que afeta as pessoas dessa forma tão rápida, de maneira tão transmissível e que tem chance delas morrerem rapidamente, não é uma doença que se espalha tão facilmente. Elas geralmente ficam mais contidas — comenta o médico, que também é professor da especialidade no HCPA e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Ele explica que isso acontece porque as pessoas ficam gravemente doentes muito rápido, o que as impede de embarcar em aviões. Diferente do coronavírus, nestes casos com sintomas acelerados, a pessoa contaminada não fica tempo suficiente assintomática para viajar e levar a doença para outro local.