
Faltou lugar na Câmara de Vereadores para a quantidade de professores que estiveram na sessão desta quarta-feira (2) na manifestação decorrente do esfaqueamento de uma professora na Escola João De Zorzi. Vestidos de preto, eles lotaram o plenário e um grupo ainda precisou ficar do lado de fora do prédio.
Os profissionais estavam representados pela presidente do Sindiserv, Silvana Piroli, que fez cobranças duras em relação às condições de trabalho nas escolas. A manifestação abordou questões estruturais e políticas municipais. Ela também aproveitou para mandar recados políticos claros a vereadores que defendem projetos que pretendem regrar a atuação dos professores.
— Convido que, antes de fazer qualquer proposta de lei, vocês, por favor, vão numa escola, fiquem uns dias cuidando do recreio, aproveitem e acompanhem o cotidiano de um professor — declarou.
Silvana também pediu mais autoridade aos professores e responsabilização dos pais dos estudantes que atacaram a docente da João De Zorzi. O discurso agradou a plateia.
Mudanças no ECA
O prefeito Adiló Didomenico foi por outra linha. Começou o discurso dizendo que "a comunidade caxiense levou essas facadas, não só a professora". Ele fez acenos a Silvana Piroli e também defendeu a retomada da autoridade dos professores em sala de aula.
— Não é possível que se continue esse sistema onde o professor não pode dar uma nota justa, onde simplesmente tem que passar o aluno de ano, pra lá no final ainda ganhar uma gratificação financeira.
Em seguida, Adiló defendeu que o Congresso Nacional altere o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para ampliar as responsabilizações a adolescentes infratores. A declaração gerou algumas reações da plateia, e o vereador Claudio Libardi (PCdoB) pediu uma questão de ordem.
— As autoridades foram convidadas pra apresentar saídas e o prefeito Adiló transferiu a competência para o Congresso Nacional — criticou.
O espaço das declarações de autoridades terminou na sequência, sem resposta de Adiló. Além do prefeito, o delegado regional, Augusto Cavalheiro Neto, fez uma fala que foi bastante aplaudida pela plateia.
Aceno após vídeo
Repercutiu mal entre professores um vídeo da secretária de Educação, Marta Fattori, defendendo a criação da Escola de Pais e avaliando que a desestruturação familiar dos estudantes pode ter contribuído para a decisão de atacar a professora. Já é consenso entre especialistas que a violência escolar passa pelo contexto familiar. Mas abordar o problema por esse ponto de vista logo após o esfaqueamento de uma professora foi entendida como uma defesa dos autores do ato, e não de quem sofreu o ataque.
Na Câmara, a secretária iniciou o discurso dizendo que o vídeo mostra apenas um pequeno trecho que não condiz com a fala completa. Ela buscou reverter a situação afirmando que somente aceitou conduzir a pasta para defender os professores.
A declaração da secretária de olhar o contexto dos estudantes não deixa de contrastar com a manifestação de Adiló e a defesa das mudanças no ECA.
Discussão com manifestantes
O clima tenso permaneceu até o término do momento dos discursos e a saída dos manifestantes. Com a sessão suspensa, houve troca de acusações entre duas pessoas da plateia e o líder de governo, vereador Daniel Santos (Republicanos).
Em meio ao embate, o parlamentar pegou o microfone e se dirigiu aos dois manifestantes insinuando a defesa da morte de policiais. O vereador Claudio Libardi (PCdoB) se apressou em retirar o microfone do colega e a situação foi contornada pouco depois.
Botão de pânico
A violência nas escolas já vinha sendo discutida na Câmara nas última semanas. No dia 20 de março, a vereadora Rose Frigeri (PT) abordou o assunto e chegou a sugerir a instalação de um botão de pânico nas instituições. O dispositivo permitiria acionar diretamente os órgãos de segurança.
Homenagem

Mesmo com os ânimos à flor da pele, a Câmara manteve a homenagem aos 80 anos da empresa Autotravi, que já estava previamente agendada. O ato estava em andamento quando os manifestantes ocuparam o plenário.
Em pouco tempo, o grupo passou a cobrar que os vereadores tratassem da demanda dos professores. A homenagem precisou ser interrompida temporariamente pelo presidente da Casa, Lucas Caregnato (PT). Ele é professor e usava uma camiseta de apoio à categoria.
Quem conseguiu destensionar o clima até o fim da celebração foi o CEO da Autotravi, Eduardo Aver Vanin. Falando diretamente aos manifestantes, ele defendeu a valorização dos professores.