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Além de agitar a cultura, o Carnaval tem aquecido a economia local, desde a compra de fantasias e customização de abadás, por exemplo, até o consumo de alimentos, utilização de táxi e transporte por aplicativo, além da contratação de colaboradores para empregos temporários.
De acordo com a prefeitura de Caxias, o Carnaval de blocos e de rua é reconhecido como turismo criativo, ou seja, adota a criatividade como suporte ao desenvolvimento econômico, social e cultural. No ano passado, os festejos movimentaram mais de 150 mil pessoas, conforme estimativa do município.
O frequente pedido por indicação de locais que façam customização de abadás motivou as artesãs Flavia Kuwer, 50 anos, e Bárbara Andelieri, 35, a unirem suas experiências e abrirem o próprio negócio, em Caxias do Sul. Há cerca de 15 dias, foi criada a Estação Customiza para atender aos foliões que querem tornar seus trajes únicos para o Carnaval.
São vendidos pelas amigas, também, acessórios como brincos, ombreiras, franjas e peças de crochê. Apesar da inauguração recente, a procura é grande, especialmente de mulheres, segundo Flavia, que acrescenta que os pedidos são por abadás mais leves frente às altas temperaturas.
— A primeira coisa que a galera pede é para tirar a gola. Pedem também croped, muito brilho e costas nuas. Porque a onda de calor está muito forte. Então, menos tecido possível. Basicamente, é tirar a gola e botar brilho — conta.
As proprietárias da Estação Customiza contam com um acervo de itens da vida de artesã, como linhas, conchas e colares. O preço da customização sai de R$ 70, enquanto os acessórios custam a partir de R$ 15.
— Se pagar o material que investimos, já vamos estar no lucro. Queremos que as pessoas saibam que fazemos esse tipo de serviço. Percebemos, agora, que tem procura, que tem público — afirma Flavia.
Elas recebem encomendas por meio da página no Instagram (@estacaocustomiza) e presencialmente na livraria Do Arco da Velha, no centro da cidade. A arte acontece na casa da Flavia, no bairro Século XX.
— Eu gosto de decoração, de artesanato em geral. Sou metida, gosto de costurar, fazer tricô, crochê, pintar — brinca.
Os trabalhos também têm a experiência da colega, a Bárbara:
— Sou artesã desde criancinha. No Carnaval, eu gosto de aproveitar para customizar minhas roupas. E sempre alguém pede. Quando a Flávia surgiu com a ideia, eu pensei: acho que me encaixo legal nisso.
Para quem não teve tempo de mexer no seu abadá, a Estação Customiza estará com um espaço para atender aos foliões com modelos pré-definidos no Bloco da Velha, no domingo (2), na Rua Dom José Barea. A ideia é replicar o serviço “express” nos próximos anos em outros bloquinhos de Carnaval, além das encomendas.
Retorno para colorir e faturar
Ao mesmo tempo em que proporciona a inauguração de negócios, o Carnaval também provoca a volta de outros. É o caso da loja de roupas femininas Complementus, que havia fechado as portas na Avenida Júlio de Castilhos em novembro do ano passado, mas está na ativa para a folia em 2025. O motivo é especial, contam as sócias-proprietárias — que são mãe e filha — Fabiana Maciel, 52, e Marilia Kuquert, 28.
— Um dia a Marília falou: ‘mãe, está todo mundo me perguntando se vai ter Carnaval’. Eu falei ‘poxa, teria que ter’. Porque é muito divertido, a loja lota, é aquela confusão, a mulherada, 'não sei o que eu boto', trazem amigas, é incrível. É uma coisa que alegra o meu coração, ver todo mundo naquela empolgação, naquela alegria. Porque a vida, o dia a dia, já são uma luta, e no Carnaval o pessoal relaxa — reflete Fabiana.
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A conhecida fachada da loja, em rosa, foi substituída por outra azul, que dá lugar à empresa de eletrônicos da família, criada em 2021. A Complementus, contudo, voltou com um espaço físico aos fundos, e também atende online, pelo Instagram (@complementus_) e pelo site.
O comércio surgiu em meados de 2000, a partir das mãos de Fabiana, que já tinha experiência como administradora de banquinhas no antigo camelódromo. Ela recorda que a Complementus começou a se notabilizar em consonância com o estouro dos bloquinhos, em Caxias, na metade da década de 2010.
Chega essa época do ano, o produto principal é o Carnaval, garante a filha, Marília, que valoriza a importância do atendimento em loja física. O acessório é o coração da Complementus, define ela: há brincos, pedrarias para o rosto e corpo, glitter, tops, saias de fitinha, de tule, conjunto hot pant e meia arrastão.
Os foliões encontram, por lá, de glitter, a R$ 5, até conjuntos por R$ 69,90:
— Começamos a nos preparar com as clientes vindo atrás. Corremos atrás de ter as principais fantasias e acessórios. Também nos antenamos nas cores dos abadás, dos bloquinhos, para conseguirmos atender nas cores de acessórios que as clientes procuram. A loja física ainda faz muita diferença, por isso não abandonamos completamente, até porque é uma forma de revermos as clientes.
Em meio a pandemia da Covid-19, a empresa da família no segmento eletrônico ganhou força, se sobressaindo frente à loja de roupas, ocasionando, recentemente, essa adequação de mercado. Foi uma escolha difícil, desabafa a sócia-proprietária Fabiana.
O futuro da Complementus ainda é incerto. O mais provável é que siga o caminho online. Entretanto, as donas admitem que não resistem ao Carnaval e à onda das clientes adeptas aos acessórios do local:
— Se o pessoal quiser, vamos continuar aqui atrás ou vamos pensar numa nova estratégia de continuar fisicamente. Estamos mudando gradativamente, vamos alimentando o site e deixando as coisas acontecerem naturalmente — sinaliza Fabiana.
Fatia importante do faturamento anual
Uma vertente que também ganha fôlego neste período é o da produção técnica. O proprietário da Open Door, Érico Evandro da Silva, 52, aponta que os eventos de Carnaval representam cerca de 30% do faturamento anual da empresa.
Dos mais de 30 anos atuando com sonorização, iluminação, instalação de painéis LED e suporte em geral, passa de uma década a prestação desses serviços para os blocos do Carnaval caxiense, segundo Silva.
— Fazemos a estrutura, desde o palco, parte de vídeo, parte de sonorização dos shows, toda essa parte de equipamento e estrutura para o evento — sintetiza.
Na quarta-feira (26), ele comandava o início da montagem do palco e aparato técnico do Bloco da Ovelha Negra — que ocorre no sábado (1°) e domingo (2) —, no estacionamento de uma academia, no bairro Santa Catarina. Além desse, tem a marca da Open Door neste ano o Bloco Acadêmicos do Luizinho, o Bloco da Velha, no domingo, e o Carnaval de Rua, com as tradicionais escolas de samba, no dia 8.
Silva explica que, para a Ovelha Negra, trabalham em torno de 25 funcionários, sendo que em todo o período são 80.
— Tem mais todos os carregadores que montam, desmontam, descarregam caminhão, que deve dar umas 30, 40 pessoas. Fora a parte da estrutura, o pessoal do palco que vai auxiliar, eu acho que um evento desse (Bloco da Ovelha Negra) envolve umas 300 pessoas — estima.
Cada evento demanda um investimento específico pelo contratante. O proprietário da Open Door calcula que o valor para o Bloco da Ovelha Negra esteja em torno de R$ 100 mil, com quatro painéis de LED; enquanto o Bloco da Ovelha, que terá suporte técnico para a banda, será na faixa dos R$ 80 mil.
— O Carnaval é um evento muito importante, movimenta muita gente, não só nosso setor. É o maior evento popular, e em Caxias ele está aumentando bastante. Para nós, ele é (representa) uns 30% do faturamento da empresa no ano — explica.
A empresa costuma atender outros eventos do município, como a Festa da Uva.