
Sete cruzes num espaço de 30 metros provam que uma obra de drenagem mal executada transformou uma curva do Km 256 da Rota do Sol em um ponto mortal, talvez o pior de toda a estrada.
Em três anos, nove pessoas perderam a vida em colisões provocadas por aquaplanagem (quando o pneu do veículo perde aderência do solo por causa da água na pista e se desgoverna). O acidente mais recente matou o casal João Alcione Covolan, 73 anos, e Maria Luiza Covolan, 66, às 20h30min de quinta-feira.
O Departamento Autônomo de Estradas e Rodagens (Daer) teria sido informado sobre o defeito que empurra motoristas e passageiros para a morte principalmente em dias de chuva. A única intervenção foi há cerca de três anos, quando uma equipe cavou valeta às margens da pista para desviar parte da precipitação. De lá para cá, não houve limpeza e manutenção da simples valeta, ação que pouparia vidas. Sem ter para onde escorrer, o excesso não absorvido pela terra transforma a rodovia numa espécie de cachoeira.
O ponto mortal fica a menos de 100 metros do Restaurante Sombra Nativa, na localidade de Aratinga, em São Francisco de Paula. A curva em si não seria perigosa. Há placas alertando sobre o trecho sinuoso e o limite máximo de velocidade: 80 km/h. O problema, segundo a polícia e moradores, é a água acumulada. O risco pode ser grande nos dois sentidos, mas as probabilidades são multiplicadas para quem dirige no sentido Litoral-Caxias do Sul, quando a rodovia vira uma leve descida, e em seguida, vem a curva fatal.
Se chove forte, a camada de água cobre uma extensão de 20 a 30 metros. Mesmo em velocidade moderada, um veículo pode aquaplanar. Em situações assim, é praticamente impossível controlar o carro. É o que teria ocorrido com o casal Covolan, e outras sete pessoas desde janeiro de 2012. No período, foram quatro acidentes graves, sempre em momentos chuvosos.
No caso de quinta-feira, conforme o Grupo Rodoviário de Gramado, João conduzia um Corolla e perdeu o controle da direção no sentido Litoral-Caxias do Sul. Em seguida, passou por baixo de uma carreta. Ele e a mulher morreram antes de receber socorro. A carreta vinha no sentido oposto.
Os perigos no Km 256 são desconhecidos pela maioria dos motoristas, mas o Grupo Rodoviário de Gramado e moradores do entorno já enviaram ofício pedindo a ampliação de uma canaleta de concreto para melhor escoamento da chuva. Esse documento, segundo o Daer, não chegou ao conhecimento da sede do órgão, em Porto Alegre. Enquanto a solução não vem, resta saber quando será o próximo acidente.
Daer promete vistoriar trecho
Por meio da assessoria de imprensa, o Daer nega ter recebido qualquer comunicado sobre os perigos do Km 256. Contudo, adiantou que a 15ª Superintendência Regional do órgão, com sede em São Francisco de Paula, fará vistoria para avaliar a situação e adotar medidas necessárias.
O Pioneiro tentou contatar os responsáveis pela 15ª Superintendência, mas funcionários disseram que o engenheiro Vagner Menezes Seerig, responsável pelo setor, está em férias. Os substitutos não poderiam comentar o assunto.
Testemunha de tragédias
Da porta do Restaurante Sombra Nativa, a comerciante Eronilda Pimentel Aguiar, 55 anos, testemunha o desenrolar das tragédias do Km 256. Na noite de quinta-feira, ela trabalhava no estabelecimento, que mantém há 12 anos, quando ouviu um estrondo. Como chovia torrencialmente, nem ela ou clientes se arriscaram a conferir o que havia ocorrido. Poucos minutos depois, um motorista entrou no restaurante e relatou a colisão entre o Corolla e a carreta. A reação nos primeiros segundos foi de incredulidade.
- Ligamos para a polícia de Gramado e fomos ver - conta Eronilda.
A Polícia Rodoviária Estadual (PRE) levou quase uma hora para se deslocar de Gramado até São Francisco de Paula, tempo que poderia ter sido abreviado se os policiais da Operação Golfinho não tivessem sido removidos da Rota do Sol.
O sargento Alvimar Barbosa de Souza, de Gramado, confirmou o pedido de intervenção na curva ao Daer.
- Só eu já atendi umas três mortes ali. Não tem drenagem e a vala de escoamento está cheia de galhos, folhas e terra. O perigo é por um trecho de 200 metros mais ou menos. O ofício foi encaminhado, mas não lembro a data - revela o policial.
A comerciante Eronilda afirma que uma equipe esteve ali há três anos. O pedido continha assinatura de moradores.
- Fizeram a valeta e nunca mais apareceram. Isso foi avisado. Tem que melhorar no lado esquerdo da pista, de quem vai para o sentido de Caxias - aponta a mulher.
PREVINA-SE
Se você estiver trafegando pela Rota do Sol, no sentido Litoral-Serra, fique atento ao restaurante Sombra Nativa, na localidade de Aratinga. Quando avistar o estabelecimento à direita da Rota do Sol, reduza a velocidade. A água, segundo a polícia e moradores, escorre nesse trecho da pista. Logo em seguida, fica a curva do Km 256.
Mortes no Km 256
Família destruída: na tarde de 24 de janeiro de 2012, o Gol conduzido por Arceu Webber, 51, aquaplanou e atingiu uma carreta. Morreram a mulher dele, Maristela Argente Webber, 48, e a sobrinha, Giovanna Argenta Durante, 12. O fim repentino da família comoveu Flores da Cunha. Os três voltavam de Arroio do Sal, onde costumavam veranear todos os anos. Webber e a mulher eram de Caxias, mas residiam há 20 anos em Flores.
Viagem abreviada: na tarde de 14 de fevereiro de 2013, Giovani Azevedo da Cruz, 20, e a amiga Grace Franco Nogueira Boccadamo, 35, saíram de Arroio Teixeira, em Capão da Canoa, para buscar um medicamento para um tio dela tio em outra cidade. Pouco antes das 15h, o Palio conduzido por Cruz aquaplanou e invadiu a pista contrária, batendo num caminhão. Os dois morreram na hora. Natural de Barão, Grace morava havia 15 anos em Lugano, na Suíça. Vivia com os três filhos, de 15, nove e sete anos, a mãe e a irmã na Europa. Cruz era natural de Capão da Canoa, planejava abrir uma eletrônica.
Colisão com ônibus: no início da noite de 10 de outubro de 2012, o Gol conduzido por Eduardo Cunha dos Santos, 63, colidiu frontalmente com um ônibus do Expresso São Marcos. Ele morreu na hora, e o passageiro Alexandre André Pereira, 38, veio a óbito poucos dias depois num hospital. Na época, o motorista do ônibus relatou que arrancava o coletivo quando percebeu o carro aquaplanando na pista.
Casal visitaria parentes: João Alcione Covolan, 73, e Maria Luiza Covolan, 66, haviam saído de Cambará do Sul Cambará do Sul, na noite da última quinta-feira. Eles visitaram parentes em São Francisco de Paula, mas a viagem terminou na curva do Km 256 da Rota do Sol. O sepultamento do casal está previsto para as 9h deste sábado, no Cemitério Municipal de São Francisco de Paula. O velório ocorre na Funerária Paraíso.