
Criada por negros escravizados como mecanismo de autodefesa no século 18, a capoeira como se conhece hoje chegou à Serra gaúcha no começo dos anos 1980 e comemora, em 2025, quatro décadas do grupo responsável por disseminar sua cultura pela região. A Unesco declarou a capoeira patrimônio cultural imaterial da humanidade.
Dentre tantos nomes que ajudaram a construir a história do Grupo Liberdade, está o de um baiano, Manoel Olímpio de Souza, o Mestre Índio, que em Porto Alegre designou Júlio Cesar Martins, na época seu aluno, para trazer a arte para Caxias do Sul.
— Pratiquei desde minha pré-adolescência, acompanhei o grupo do Mestre Índio no Estado até que ele me deu total liberdade para começar meu próprio grupo na Serra. Cheguei a casar em Caxias, tenho três filhas que nasceram nessa cidade que me acolheu tão bem. Hoje, estou fora do cenário, acompanho de longe, nem me considero mestre, sou um amigo e colaborador do esporte e pude formar essas pessoas que merecem o título de mestre e que doam suas vidas para a capoeira — comenta Martins.

À frente da Nagô, a primeira academia da cidade que ensinou golpes, música, esquiva e história, o Mestre Grilo, como é conhecido no meio, formou o caxiense Paulo Sérgio Nunes da Silva, o Mestre Chocolate que se apaixonou pela capoeira em uma viagem ao Rio de Janeiro, no final da década de 1970.
— Estudava no antigo Abrigo de Menores São José e depois fui morar no bairro Pioneiro, então sempre precisei me defender, e foi na capoeira que eu encontrei o jeito para isso — diverte-se.
Na região onde predomina a imigração italiana, nascia em 1985, o Grupo Liberdade que foi além da luta e da dança, abrindo o diálogo com alunos, coisa rara naquele tempo, segundo o Mestre Chocolate, para exercitar o que chamam hoje de “papoeira”.
— O nome Liberdade não é à toa, a capoeira foi criada para promover esse sentimento no homem escravizado e, principalmente, os mais antigos, viam na capoeira um viés ainda de muita luta, não abriam espaço para o aluno opinar. Em Caxias ainda tivemos que bater de frente com a cultura italiana, mas o profissionalismo fez a gente quebrar todas as barreiras — lembra Chocolate.

Formada a primeira geração de capoeiristas, o grupo pôde se expandir para outras cidades e hoje se orgulha por ter levado a capoeira para todo a região:
— De Bom Jesus a Farroupilha, Nova Prata a Vacaria, tudo era grupo Liberdade, os mestres mais antigos da cidade e da Serra, os que tem mais de 30 anos de capoeira, todos passaram pelo grupo. Quem foi meu aluno e, amanhã depois foi morar fora, levou o grupo para onde foi. Ainda não podemos considerar como um ponto, mas temos dois rapazes que hoje moram na Alemanha e que aprenderam a jogar conosco.

Colhendo frutos em outras cidades da Serra gaúcha
Os professores e mestres formados pelo Liberdade ainda levam a bandeira do grupo por onde passam, mas mantém seus projetos individuais. Atualmente, o grupo está em Caxias, Gramado e Uruguaiana. Na região das Hortênsias é capitaneado por Ubirajara Elias de Moura, o Mestre Birinha que faz parte do grupo desde 1990, chegou a dar aula na Noruega.
— Conheci o Chocolate dando aula num pavilhão cheio de alemão em Nova Petrópolis. É uma das artes que mais combate o racismo, e de forma silenciosa, porque o objetivo é reunir pessoas que possam construir um mundo mais igualitário. Na sua criação, o grupo incentivou os alunos a pesquisar e a ler. A capoeira, como toda história afro, não tem muito registro, então tem aí também um objetivo de manter a cultura, isso é “papoeira” —explica Ubirajara.
Aos 40 anos, o grupo que já viajou pelo mundo para mostrar o que construiu na Serra. É considerada pelos fundadores como “uma associação sem fins lucrativo, criada para espalhar a capoeira e difundir os benefícios que proporciona”.

“Levo a bandeira onde eu vou”
Graduado em 2004 pelo Liberdade, Richard Barros, 41, o Mestre Tijolo se graduou em Educação Física, fez da capoeira sua profissão e compartilha o que aprendeu no grupo com alunos de 14 escolas infantis e quatro centros de contraturno de Caxias do Sul. É o tal do profissionalismo, que seu Mestre Chocolate disse ter quebrado barreiras:
— Fui inserido num projeto do grupo na Escola Luciano Corssetti e desde então nunca parei. Levo a bandeira do Liberdade onde eu vou, é o grupo que me ensinou a ser professor, aprendi a ser professor antes de ser bacharel em Educação Física, quando me formei em 2014 já sabia ministrar aulas para crianças e adultos, a faculdade me trouxe a técnica e a ciência, mas a prática quem me deu foi o grupo — reconhece Richard Barros.
Fique atento às comemorações
- Para marcar a data, o Grupo Liberdade preparou uma série de ações que celebram as quatro décadas de atuação.
- Entre elas está uma exposição de fotos no Museu Municipal a partir deste sábado (5) e uma homenagem na Câmara de Vereadores na sexta-feira (11).
- No domingo (13) o Teatro Pedro Parenti recebe às 15h o evento de batizado, troca de graduações, formaturas e apresentações.
Curiosidades
- Você sabia que até a abolição da escravidão, a capoeira era punida com açoites e calabouço?
- Em 1890, o Código Penal Brasileiro considerava a capoeira um ato criminoso, punindo com prisão de até seis meses.
- A capoeira era vista como subversiva e violenta, além de marginalizar os negros.
- Em 1937, o presidente Getúlio Vargas legalizou a capoeira após ver uma apresentação e ficar impressionado.