Um leitor (também escritor) mandou e-mail elogiando a a minha crônica Livre é o sabiá. “Gosto muito destas misturas de ficção/realidade, acho que todos precisamos disto pra fugir da mesmice do dia a dia”.
Pois é, Samarone, só que anda cada vez mais difícil discernir a ficção da realidade. O limite entre o fake e a verdade está meio bagunçado, parecendo gaveta de armário de adolescente, entre cobras e lagartos, sempre tem uma meia velha e furada sem par.
Enfim... Deu no Jornal Expresso, de Lisboa: “Gaza transformada em destino turístico, com Musk na praia a atirar notas no ar: Trump divulga vídeo criado por IA sobre Palestina”. É por essas — e tantas outras — como diz meu amigo Gabriel, o Izidoro, que o David Lynch resolveu sair de cena. Dizem, não morreu, e mora na Argentina.
As fronteiras entre o real e a ficção estão tão borradas que a vida parece de mentira. Casos bizarros se repetem com requintes de crueldade, aqui e ali. Lembram do cara que matou a esposa na frente dos filhos? Dizem, virou assassino porque não aceitou o fim do relacionamento. Tão triste que é difícil suportar. Pra fechar a cena, se matou.
Segundo as estatísticas é o brasileiro quem mais acredita em fake news. E naturalmente, a nação que mais espalha desinformação. Nossa fama alcançou até o The New York Times. Reportagem de 5 de julho de 2021 já chamava a atenção pelo título: As notícias falsas do Brasil são completamente bizarras. Vanessa Barbara listou pérolas como essa:
“Logo no começo da pandemia, meu pai compartilhou um vídeo de maneira hesitante — ‘será que é verdade?’ — que dizia que o vinagre era melhor do que o álcool gel para combater o vírus”. No caso, para combater o coronavírus. Escolha seu emoji e compartilhe você também.
Gosto daquela máxima, que além de clichê virou uma espécie de orgulho nacional: “lógico que é verdade, recebi no zap” ou ainda, as múltiplas versões, todas igualmente com selo de reconhecimento digital: “lógico que é verdade, vi no fêice”; “lógico que é verdade, meu tio enviou”; “lógico que é verdade, vi no grupo da igreja”. E por aí segue...
O Brasil não é só o país da piada pronta, mas é o rei do golpe. Tem de todos os tipos e cores. Tem desde o básico “golpe do bilhete premiado”, passando pelo “golpe dos nudes” até o “golpe do namorado multimilionário que pede dinheiro emprestado”. Vai ali na praça e grita: “vai um golpe aí, minha senhora?”, que é capaz de dar certo.
É tanto golpe que até presidente dá golpe em si mesmo. Clica no Google. Em 1937, o então presidente Getúlio Vargas, deu um golpe derrubando o próprio governo para ser presidente do tal “Estado Novo”.
Fato ou fake, o assunto nunca saiu de moda na Terra Brasilis, onde (dizem), em se plantando tudo dá.