Por Maria Carpi, poeta e defensora pública
O que mais queria é ter agradecido a cordialidade de Moacyr Scliar, que faria 87 anos neste 27 de fevereiro. Mas silenciei.
Veio-me à mente a integridade humana da pessoa do Scliar. No trabalho, na profissão, na família, no cotidiano com os amigos ou debruçado sobre a página branca, era a expressão viva da cordialidade.
Um homem só, coeso em sua lealdade a uma sociedade justa; um homem só, leal ao seu ideal de fraternidade; um homem só, perseverante ao sonho do bem comum, torna-se um exército.
Quando vivemos uma época acirrada pelo egoísmo sistêmico, desde a escola e depois, na profissão, cuja meta é chegar ao topo, quando o narcisismo só enxerga a nossa imagem no lago das vaidades, Scliar comparece com sua gentil presença.
Desde cedo, o compromisso de médico sanitarista e a responsabilidade da escrita se associaram para criar elos com toda a humanidade.
Um homem só, coeso em sua lealdade a uma sociedade justa
Somos todos, para Scliar, escritores e poetas, testemunhas do nosso tempo e profetas do mundo que há de vir. Somos o povo do Livro na ética com a palavra.
Os conflitos entre as nações chegam aos ouvidos do jovem escritor, na guerra do Bom Fim. Ele percebe a caminhada da emancipação feminina, com a coragem da mulher que escreveu a Bíblia, na ocultação do nome. Sempre com coragem, mas sem esquecer o humor e a alquimia do lúdico, relata a lojinha dos pequenos comerciantes da Voluntários, judeus e palestinos unidos pela mercancia. E vai além, entre crônicas e contos, com a fábula do centauro no jardim da existência, um mito que não tinha asas, como todos afirmam, mas patas, para galopar desde o sul, desfraldando a bandeira da cordialidade.
Tenho dificuldade de ler textos quando os fatos me testemunham que o escritor não honra a sua palavra, levando uma vida contrária ao que escreve.
Scliar, por sua vez, estabeleceu fusão de carreira e existência, num único múltiplo. Eu vos abraço, milhões, de um exército de um homem solidário.