Por Rodrigo Papaléo Fermann, diretor jurídico da Federação Israelita do RS (FIRS)
No contexto de falência moral do pós-guerra, Hanna Arendt desenvolveu suas reflexões sobre a banalização do mal, demonstrando que isso constitui uma das bases para o surgimento de movimentos totalitários. Em suas lições, pontuou que indivíduos comuns podem ser capazes de cometer atos atrozes justamente por não conseguirem julgar contextos, aceitando-os diante da inação da sociedade.
Lá se vão mais de 60 anos da publicação de Eichmann em Jerusalém - Um Relato sobre a Banalidade do Mal, mas o panorama atual faz necessária a releitura da filósofa alemã. Os sinais se acumulam e, incrivelmente, alguns setores da sociedade seguem banalizando situações gravíssimas, que deveriam ser contundentemente reprovadas.
Poucos dias depois, ocorreu o episódio do estudante de Engenharia da UFRGS
Dois fatos, aparentemente sem ligação, tornam evidente essa necessidade. Recentemente, o cantor e compositor norte-americano Kanye West escancarou sua adesão à ideologia nazista, passando inclusive a comercializar vestuário estampado com suásticas, símbolo umbilicalmente ligado ao partido de Adolf Hitler. Poucos dias depois, ocorreu o episódio do estudante de Engenharia da UFRGS, que se apresentou com o símbolo marcado no rosto durante sua cerimônia de graduação.
Os fatos não estão conectados pela proximidade territorial, tampouco se assemelham por conta da magnitude de exposição. É a banalização de sua relevância que os identifica, especialmente quando não faltam vozes para contemporizá-los: "não foi bem isso que eles quiseram fazer", "são vozes isoladas", "fazem apenas para chamar atenção" e por aí vão as atenuações.
Sugerir que tais atos tenham sido apenas fruto de mentes isoladas significa minimizar o perigo que representam. Mais do que isso: significa fechar os olhos para o encorajamento que proporcionam a outras pessoas isoladas. Não banalizemos o mal, sob pena de estarmos condenados a conviver com ele e voltarmos a contextos sombrios que, infelizmente, não são coisa do passado.