Gravações que mostram um candidato a vereador entregando dinheiro em troca da promessa de votos motivaram o Ministério Público Eleitoral a pedir a cassação desse político e de dois aliados dele, o prefeito e o vice-prefeito de Alegria, cidade do noroeste do Rio Grande do Sul. Os vídeos são complementados por depoimentos de eleitores que dizem ter vendido apoio aos três e também de pessoas que afirmam ter intermediado a negociação. Os eleitos afirmam se tratar de uma armação.
Alegria tem 3,2 mil habitantes e vivenciou uma eleição extremamente apertada. O prefeito eleito, Fábio Schakofski (PSD), fez 1.293 votos. O segundo colocado, Renato Teixeira (MDB), conseguiu 1.231 votos. Ou seja, foram 62 votos de diferença para o vencedor.
O Grupo de Investigação da RBS (GDI) teve acesso aos vídeos (também protocolados na Justiça Eleitoral), que mostram a suposta troca de dinheiro por votos feita por um apoiador de Schakofski. As negociações são conduzidas pelo candidato a vereador Cláudio Vargas (PP).
Em conversa com um eleitor, o político propõe:
— Deixo R$ 500 pra ti, aí. Vou te dar R$ 500 hoje e, se eu me eleger, te dou outros R$ 500. Tu vota em mim pra vereador, o meu número tá aqui ó...11.622. E vota também pro 55 (número do candidato a prefeito que ele apoia).
Vargas estende um panfleto colorido com a foto do candidato a prefeito Fábio Schakofski e do vice dele, Elson Secconi.
O eleitor responde:
— Feito.
No total, seriam pagos ao eleitor R$ 1 mil para votar em Vargas e no candidato a prefeito apoiado por ele.
Em outra gravação, Vargas aborda uma eleitora, a quem entrega um folheto da campanha do candidato a prefeito do PSD:
— Eu tô dando R$ 1 mil agora e R$ 1 mil depois. Aí tu vota pra mim e pro 55 (número do candidato a prefeito Schakofski).
A eleitora pergunta:
— Aí tu me paga segunda?
Vargas concorda, puxa dinheiro do bolso e entrega para a eleitora:
— Se tu topar, entrego agora.
A eleitora pega o dinheiro, confere e confirma:
— Tudo certo. Então pego R$ 1 mil do Fábio (candidato a prefeito) agora.
Apesar do esforço, Vargas não se elegeu.
Schakofski e Secconi negam ter solicitado que Vargas oferecesse dinheiro em troca de votos (leia mais abaixo). O GDI entrevistou uma testemunha de defesa do prefeito e do vice, que não quer ter seu nome mencionado. Esse declarante afirma que as gravações são uma "armação" feita por um adversário para prejudicar Schakofski e Secconi. O homem afirma que assistiu a um ensaio da gravação, sem presença de eleitores.
— Foi uma briga interna no PP e um ex-vereador simulou a compra de votos — assegura a testemunha.
Há, ainda, um depoimento em cartório firmado por uma afilhada de Cláudio Vargas e que também pretendia ser vereadora pelo PP. Ela diz que intermediou compra de votos, em troca de dinheiro, saco de cimento, animais e rancho de comida.
"Era pago de R$ 1 mil a R$ 3 mil por eleitor. Os valores eram pagos por Fábio Schakofski e Secconi para meu padrinho", diz a mulher no documento.

Outro eleitor também afirma, em ata registrada em cartório, ter recebido dinheiro, vale-combustível e um porco para votar em Cláudio Vargas e nos candidatos a prefeito e vice eleitos em Alegria.
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Todos estão convocados a depor no processo judicial. A promotora eleitoral Carolina Zimmer, que atua na região noroeste do Estado, pediu cassação do prefeito de Alegria e do vice-prefeito e inelegibilidade do candidato a vereador Cláudio Vargas. Na ação de investigação eleitoral, ela menciona oito vezes os vídeos da suposta compra de votos.
Os delitos atribuídos aos três políticos são abuso de poder econômico e captação ilícita de sufrágio (também chamado corrupção eleitoral). Os dois enquadramentos preveem cassação do registro e reclusão de até quatro anos a quem "dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer vantagem, para obter ou dar voto e para conseguir ou prometer abstenção, ainda que a oferta não seja aceita". A Polícia Federal também abriu inquérito, ao qual foram anexadas as gravações da entrega de dinheiro a eleitores.
CONTRAPONTOS
O que diz o prefeito de Alegria, Fábio Schakofski:
"A gente soube que isso são vídeos montados, criados pós-eleição. E a polícia, entrando no meio, vai chegar a quem mandou fazer essa armação. Não conversamos com o candidato a vereador Cláudio, até para não nos acusarem de constrangimento. Nunca pedimos compra de votos. Se ele fez, foi por iniciativa dele, não nossa. É uma montagem. Tem outras pessoas que não aceitaram resultado da eleição e disseram para testemunhas falarem contra nós. Quero ver provarem".
O que diz o vice-prefeito de Alegria, Elson Secconi:
"Estou bem tranquilo em relação a isso. O Cláudio não tem autorização nossa para pedir voto em troca de dinheiro. A comunidade fala que ele fez após eleição".
O que diz Cláudio Vargas:
A reportagem tentou sete vezes contato com o candidato a vereador, mas ele não atendeu.