
Pepe, 85 anos, é o segundo maior artilheiro da história do Santos, com 403 gols em 750 jogos. Números extraordinários, conquistados em um time multicampeão na década de 1960. O "Canhão da Vila" esquece dos números para reverenciar um companheiro de ataque que marcou mais do que o dobro de gols do que ele. Pelé, o Rei do futebol, completa 80 anos nesta sexta-feira (23), e, se depender de Pepe, tem um lugar na eternidade.
— Os pais dele o fizeram e rasgaram a fórmula. Pode surgir muita gente muito boa, mas igual a ele eu não acredito que apareça — disse, em entrevista ao Show dos Esportes, nesta quarta-feira (21), garantindo:
— Vira e mexe vem um Cristiano Ronaldo, mas igual ao Rei não aparece mais.
O ponta-esquerda vestia a camisa 11 e viu o número 10 ganhar status de majestade do esporte nas costas daquele meia que era "perfeito" e "barbarizava" aos olhos de Pepe.
— Matava a bola no peito como ela vinha, batia bem com a esquerda e com a direita, tu não sabia qual que era a melhor. Armava, driblava, lançava, barbarizava sempre — elogia o ex-companheiro.
Eles dividiram Seleção, onde o mais velho da dupla fez 40 jogos e 22 gols, mas não jogou as Copas de 1958 nem 1962. Lesões tiraram Pepe de campo em ambas. Na segunda, Pelé também se machucou e teve de ser substituído por Amarildo. Garrincha brilhou e garantiu o bi mundial.
— Foram momentos extremamente difíceis. A gente percebia que ele (Pelé) queria ficar sossegado. Via que ele chorava no banheiro quando podia, queria seguir ali, e a gente queria ajudar, mas não conseguia — recorda.
Pelé e Pepe formaram a dobradinha de camisas 10 e 11 por 13 anos na Vila Belmiro. O primeiro encontro deles foi na década de 1950, ainda fora dos gramados.
Pepe conta que estava no barbeiro ao lado do estádio quando foi avisado que chegaria um novo jogador ao time. O garoto vinha de Bauru e acompanhava este diálogo ao lado da cadeira de onde caíam os cabelos recém cortados do futuro companheiro de ataque. A expectativa que era gerada em torno dessa promessa não cabia nos bolsos do terno azul novo que Pelé trazia vestido.
— Me deu um aperto de mão que... Puxa vida! Estava com vontade de jogar, mesmo — relembra o então cabeludo Pepe.
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A relação entre eles extrapolou as quatro linhas. Pepe é padrinho de casamento do Rei, e eles mantém contato até hoje. Com menos cabelo e mobilidade, o que não mudou entre eles foram os dribles do garoto de Bauru.
— Sempre que a gente se encontra é aquela amizade, aquela alegria, e um bom cafezinho que, geralmente, eu que pago — brinca Pepe.
Para tirar o camisa 10 de qualquer comparação insistente com jogadores de menor estatura que possam ter jogado alguma parte do futebol apresentado pelo Rei, Pepe lembra das vezes que Pelé treinava como goleiro, em atividades onde só era permitido dois toques na bola, e ainda assim fazia gols:
— Se fosse fazer carreira de goleiro, ainda assim seria bom.
Um caderno especial digital de ZH será disponibilizado para assinantes na manhã desta sexta-feira (23). Serão 12 páginas que resgatam a história do Rei em 80 capítulos, dentro e fora de campo. Há ainda depoimentos de quem jogou com Pelé, de quem o enfrentou e de quem o entrevistou no momento do adeus ao Santos. Destaque também para relatos de gaúchos que presenciaram as passagem do jogador pelo Rio Grande do Sul, nos anos de 1957 e 1970.