
O Brasileirão começa neste final semana em um momento em que a Seleção Brasileira está órfã de técnico. Jorge Jesus surge como o principal candidato ao cargo.
O português, caso confirmado, será o primeiro estrangeiro contratado para comandar o time nacional — três profissionais de fora do país treinaram o Brasil de forma pontual, a última vez em 1965.
Em caso de acordo, Ednaldo Rodrigues, presidente da CBF, concluirá um movimento ensaiado desde o fim da Copa do Mundo de 2022.
Seu favorito para a vaga deixada por Tite era Carlo Ancelotti. A posição da entidade se encaixa com a tendência pela procura de treinadores estrangeiros instaurada no futebol brasileiro.
Presença estrangeira
Dos 20 participantes do Brasileirão deste ano, somente quatro (Fluminense, Juventude, Mirassol e Vitória) não contaram com um técnico estrangeiro nos últimos anos. Portugal está no centro da procura de mão de obra do exterior.
Após os portugueses encontrarem, o Brasil, cinco séculos depois, descobre Portugal, ou ao menos os técnicos portugueses. Da turma de 16 clubes do Brasileirão que tiveram técnicos de fora, 10 optaram em algum momento por um lusitano.
— Não há segredo nenhum. O futebol diz que está cheio de segredos, mas eu não vejo onde é que eles têm o segredo. O segredo, e se nós considerarmos segredo, é que nós, aqui em Portugal, estabelecemos uma metodologia — explica Jorge Castelo, responsável pela formação de treinadores na Federação Portuguesa de Futebol entre 2000 e 2016.
Castelo ressalta que são vários os aspectos dentro da metodologia do treino, mas que há um ponto de partida.
— A primeira coisa é os treinadores terem uma identidade própria, ou saberem o que é que querem que a sua equipa jogue — finaliza.
A primeira coisa é os treinadores terem uma identidade própria, ou saberem o que é que querem que a sua equipa jogue
JORGE CASTELO
Técnico e responsável pela formação de treinadores em Portugal por 16 anos.
Este ano, o torneio começa com cinco técnicos (Renato Paiva, Leonardo Jardim, Abel Ferreira, Pedro Caixinha e Pepa) oriundos das terras de Cabral.
Ao todo, nove estrangeiros estão empregados na arrancada da competição. Um reflexo dos títulos conquistados. Quatro das últimas seis edições tiveram um campeão com um profissional português.
Os estrangeiros do Brasileirão 2025
- Renato Paiva (Botafogo)
- Leonardo Jardim (Cruzeiro)
- Abel Ferreira (Palmeiras)
- Pepa (Sport)
- Pedro Caixinha (Santos)
- Ramón Díaz (Corinthians)
- Gustavo Quinteros (Grêmio)
- Juan Pablo Vojvoda (Fortaleza)
- Luis Zubeldía (São Paulo)
A tendência dos técnicos portugueses no Brasil

Técnicos estrangeiros no Brasil não são uma novidade. Outrora, eram contratados em doses homeopáticas. Agora, chegam aos lotes. O volume se intensificou desde a passagem de Jorge Jesus pelo Flamengo em 2019.
Naquele ano, o possível futuro técnico da Seleção Brasileira foi o primeiro a vencer Brasileirão e a Libertadores na mesma temporada. Não foi apenas o par de títulos o sedutor, mas a maneira superior como aquele Flamengo atuava.
Os dirigentes brasileiros cavoucaram o mercado português. Encontraram preciosidades pouco conhecidas como Abel Ferreira. Também acharam profissionais menos reluzentes. Ao menos 16 gajos passaram pela Série A em tempos recentes.
Técnicos portugueses recentes no Brasil
- Abel Ferreira (Palmeiras)
- António Oliveira (Athletico-PR, Cuiabá, Coritiba e Corinthians)
- Álvaro Pacheco (Vasco)
- Armando Evangelista (Goiás)
- Artur Jorge (Botafogo)
- Bruno Lage (Botafogo)
- Ivo Vieira (Cuiabá)
- Jorge Jesus (Flamengo)
- Leonardo Jardim (Cruzeiro)
- Luís Castro (Botafogo)
- Paulo Sousa (Flamengo)
- Pedro Caixinha (Bragantino e Santos)
- Pepa (Cruzeiro e Sport)
- Petit (Cuiabá)
- Renato Paiva (Bahia)
- Vítor Pereira (Corinthians e Flamengo)
Estudiosos do jogo

A qualidade dos lusitanos atrai outros mercados. A Premier League, principal campeonato nacional do mundo, conta com quatro treinadores portugueses na atual temporada.
— Eu acredito que o que leva os treinadores portugueses a estarem tendo sucesso é que eles estudam muito sobre o jogo. Eles têm uma capacidade de sistematizar as suas ideias promovendo exercícios específicos para fazer o processo de assimilação dos jogadores da melhor maneira possível e com isso eles conseguem ser eficientes — opina o técnico do Operário-PR, Bruno Pivetti.
O treinador fez parte da sua formação em Portugal. Os ensinamentos além mar viraram o livro Periodização Tática: o Futebol Arte Alicerçado em Critérios.
Estudam muito sobre o jogo. Eles têm uma capacidade de sistematizar as suas ideias promovendo exercícios específicos
BRUNO PIVETTI
Técnico de futebol, com formação em Portugal
A periodização tática e os portugueses

A expressão causa arrepios nos mais conservadores, mas a periodização tática rompeu fronteiras e “colonizou” treinadores de diversos países e vertentes. Não há como separar a metodologia do universo acadêmico.
O modelo teve dois grandes precursores. O conceito é creditado ao técnico Vítor Frade, responsável por aglutinar ideias desenvolvidas dentro da Universidade de Lisboa e da Universidade do Porto.
Já Carlos Queiroz, com passagem por Copas do Mundo e grandes clubes europeus, realizou trabalho similar durante o seu mestrado nos anos 1980.
— Há uma questão, que é mais prática, que tem a ver com o sucesso que alguns deles foram tendo e que abriram portas para outros e é muito importante. Por exemplo, aquilo que foi feito pelo José Mourinho, quando o Mourinho, que foi o último treinador a ganhar a Champions numa equipa fora dos Big Five, que foi no Futebol Clube Porto em 2004 — avalia o jornalista António Tadeia, comentarista do canal RTP.
Em suma, a periodização tática coloca o aspecto tático como a cola aglutinadora dos outros três pilares do treinamento esportivo (físico, técnico e psicológico). Dentro da metodologia, o modelo de jogo justifica o treino e o treino deve justificar o jogo.
— Então eu acredito que Portugal vem estudando o jogo há algum tempo e essa partilha constante entre os treinadores portugueses foi uma verdadeira escola e que conseguiu influenciar os treinadores ao redor do mundo inteiro, e a priorização tática faz parte disso — avalia Pivetti.
Atividades com bola
A visão mais purista da periodização tática prevê que todas as atividades preparatórias para o jogo sejam realizadas com bola. Não há, por exemplo, treinos especificamente físicos.
— Não sei se alguma pessoa pensou que um maratonista, que um corredor de maratona, leva uma bola de futebol na mão para correr. Ele não leva. Ele corre. É especificidade. Portanto, nós treinamos aquilo que consideramos que é fundamental — justifica Castelo.
O detalhismo do trabalho chama a atenção. Abel Ferreira desembarcou no Palmeiras sabendo o nome de todos os funcionários do departamento de futebol do clube, após estudo feito entre a assinatura de contrato e a chegada a São Paulo.
Brasil repete Portugal

O fenômeno visto no Brasil foi vivido em Portugal entre os anos 1960 e 1980. Nesse período, diversos técnicos brasileiros passaram pelo futebol português.
Otto Glória, Dorival Yustrich, Flávio Costa, Aymoré Moreira, Paulo Auturori e Carlos Alberto Silva são alguns brasucas com trabalhos nos grandes clubes lusos. O mais recente a ter sucesso foi Felipão no comando da seleção portuguesa.
— Acho que há um componente muito de moda também. É possível que seja isso. Por exemplo, nas décadas de 1950 e 1960, aqui em Portugal, a moda era ter técnicos brasileiro. Naquela época, quando era preciso encontrar um treinador, o que se fazia era muito ir buscar um brasileiro, porque tinha havido um brasileiro que tinha tido sucesso — posiciona-se Tadeia.
Outra visão sobre o tema
Castelo apresenta uma outra visão sobre o tema. Amigo de técnicos brasileiros, esteve aqui muitas vezes para observar o trabalho de seus companheiros. A vivência lhe dá subsídios para comparar os estilos entre seus pupilos portugueses e os treinadores nascidos aqui.
— Os jogadores passavam muito tempo no treino. Muita conversa. Eu via que havia um desperdício de tempo. Eu disse, mas por que eles estão tanto tempo no treino? Não é que não seja agradável estar no treino. Mas depois paravam muito tempo. Havia muitas pausas. Beber água. Para o treinador, conversar — analisa.
Seja no Brasileirão e, quem sabe, na Seleção Brasileira, a história dos técnicos portugueses no Brasil segue em andamento.