
Costumo ser a última a aderir a novidades. Entre minhas amigas, fui a última a ter smartphone, a última a entrar no WhatsApp, a última a ter um perfil no Instagram, o que não é surpresa para elas. No século passado, fui a última a ter videocassete, a última a ter um CD player, e já que estamos falando da pré-história, fui a última de nós a transar também.
Onde quero chegar? Comprei uma Air Fryer! Obrigada, obrigada. Os algoritmos também estão em festa. Não param de me enviar receitas de salmão, de frango, tudo para que eu me liberte das frituras e vire uma mulher moderna e saudável – já era hora.
O que o povo não sabe é que sou craque em me nutrir bem – só que sou uma gourmet de ideias. Prefiro pensar a me empanturrar de batata frita. Passo o dia beliscando música, textos, entrevistas, conversas, postagens, humor. Fiz da minha casa uma delicatessen cultural.
Trabalho em home office desde quando era um privilégio de poucos. Hoje, somos uma multidão sem ter um patrão vigiando a produtividade por trás de nossos ombros. A tradicional escapada para o cafezinho (pausa restauradora dos prisioneiros de escritórios) deu lugar a escapadas a todo minuto, sem vigilância. Daí que eu insiro vários “cafezinhos” entre as obrigações da agenda.
Releio trechos de livros, assisto a entrevistas do Roda Viva e do Sem Censura, acompanho os comentários do Pedro Cardoso no Insta, pesquiso músicas novas para minha playlist, troco áudios quilométricos com os amigos que moram longe, confiro a programação do ICL Notícias, faço palavras cruzadas enquanto pego sol na sacada, sigo psicanalistas, jornalistas, poetas, filósofos e comediantes nas redes (já que não consigo evitar meu próprio sequestro, ao menos escolho bem os algozes), faço exercícios na sala com pesos, elásticos e caneleiras, me distraio com fotos de moda de rua, leio mais um pouco, saio para caminhar escutando as músicas que recém adicionei, consulto meu saldo no aplicativo do banco e descubro que sim, vai dar para viajar em junho. E volto para o trabalho correndo, porque ser feliz tem um preço.
Dispersiva, sim, mas bem alimentada. Não dedico meu tempo aos sabotadores da verdade – vou ao teatro e ao cinema quando quero ficção. Dieta balanceada é aquela composta de nutrientes valiosos: arte de qualidade, informação de boa procedência e uma pitada de ousadia, que para caretice tenho apetite zero.
Adquiri uma Air Fryer porque minha cozinha não mudou quase nada desde 1988 e tenho uma reputação a zelar. Mas não consumo qualquer babado só para me sentir atualizada. Ainda prefiro textos longos, amigos reais e políticos que desapontam, mas não são insanos. Serei a última a aderir à morte da minha cuca.