
Ingressar em uma universidade federal é a realização de um sonho para milhares de jovens. Mas imagine passar no vestibular, fazer a matrícula e iniciar as aulas no curso escolhido para depois ser informado que perdeu a vaga. Esse é o drama enfrentado pelos personagens de Florescer — O Musical, produção teatral gaúcha que estreia no dia 6 de abril em duas sessões no Teatro do CIEE, em Porto Alegre (veja detalhes ao final).
A trama é inspirada na onda de desligamentos de alunos cotistas que ocorreu na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em meados de 2021. O episódio causou polêmica e mobilizou diferentes movimentos de luta estudantil, que reivindicavam a permanência dos estudantes.
A universidade alega que os desligamentos atingiram estudantes que estavam vinculados à instituição por meio de matrícula provisória, mas precisavam ainda comprovar o cumprimento dos pré-requisitos exigidos para a efetivação da vaga. "Em síntese, esses candidatos não apresentaram a documentação necessária ou mesmo a apresentaram, mas tiveram o recurso indeferido", explica a assessoria da UFRGS, em nota.
Inspiração em vivências da autora
É nesse contexto que estão inseridos Camila, Letícia, Bianca, Caio, Arthur, Valentina e Leonardo, os personagens de Florescer. Unidos pelo infortúnio comum, eles lutam para permanecer na universidade enquanto lidam com seus dramas individuais.
— Cada um dos personagens tem o seu próprio universo e as suas próprias questões, que vão atravessando a luta coletiva que eles travam. São enredos que envolvem temas como sexualidade, negritude e as dificuldades de quem precisa estudar e trabalhar — explica Agnes Paula, roteirista, diretora-geral e intérprete de Camila, a protagonista do espetáculo.
Parte dos enredos vistos no espetáculo é inspirada nas vivências da autora, que, além de atriz e cantora, é estudante do curso de Letras da UFRGS. Agnes vê a universidade pública como uma ambientação fértil para o desenvolvimento de narrativas.
— A maioria dos estudantes ingressa no Ensino Superior bastante jovem, e as experiências que temos na universidade modificam o modo como pensamos e enxergamos as coisas. Foi na universidade que me descobri uma mulher negra, me envolvi com a militância LGBT+ e entendi qual é o mundo que quero construir. É um espaço com potencial transformador muito grande, que pode ser palco para várias histórias — reflete.

Canções originais e hits de Johnny Hooker
A jornada dos personagens de Florescer é contada através de números musicais que mesclam canções originais, compostas especialmente para o espetáculo, e hits do artista Johnny Hooker. Além dos atores-cantores principais, a montagem inclui banda ao vivo, cantores de apoio e bailarinos.
Mais de 30 pessoas estão envolvidas no espetáculo, que tem cerca de duas horas de duração. A equipe é majoritariamente formada por pessoas negras e LGBT+. Algo que, conforme Agnes, era uma das premissas do musical:
— A gente está falando sobre vivências de pessoas negras, pessoas LGBT+, então era importante que esse lugar de fala fosse respeitado. Também entendo que é simbólico colocar esses corpos sobre o palco, ainda mais em um musical, gênero que costuma ser ainda mais elitizado que os demais.
Por que poucos musicais são produzidos no RS?
Os artistas foram selecionados por meio de audições. A prática é comum no universo do teatro musical, mas pouco presente no cenário do Rio Grande do Sul, que ainda realiza poucas montagens do gênero, conforme observa Agnes.
Como desafios para a produção de mais musicais gaúchos, a diretora cita o alto custo do formato e a escassez de patrocínios. No caso de Florescer, a produção só foi possível por conta dos editais de incentivo à cultura nos quais o projeto foi contemplado — o que a autora espera ver se repetir com outras montagens do gênero.
— Hoje, o epicentro do teatro musical está em São Paulo e no Rio de Janeiro. O nosso desejo é fazer com que o Rio Grande do Sul também seja um solo fértil para a produção de musicais, porque temos todas as condições artísticas para isso. Temos gente capacitada e talentosa, que, mesmo com as dificuldades, está fazendo essa cena acontecer. Se houver mais incentivo, o RS também pode se tornar uma potência — afirma.
Para ela, esse processo também passa pela adesão do público:
— O nosso convite é para que as pessoas prestigiem o espetáculo e apoiem a cena do teatro musical gaúcho. Florescer aborda questões muito densas e dolorosas, mas também é divertido e engraçado. É uma história linda, que fala sobre como o amor, a amizade e a união podem nos ajudar a superar situações difíceis.
Florescer — O Musical
- Dia 6 de abril (domingo), às 16h30min e às 20h, no Teatro do CIEE (Rua Dom Pedro II, 861), em Porto Alegre
- Ingressos a partir de R$ 34,50, disponíveis na plataforma Minha Entrada