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Se você associa a figura da mulher no Carnaval apenas às rainhas, musas, e passistas, é preciso olhar com mais atenção. A presença feminina nestes postos segue enchendo as escolas de orgulho, mas também avançou para funções antes ocupadas somente por homens.
Em Porto Alegre, é possível vê-las dirigindo escolas, puxando o samba na avenida, regendo bateria, redigindo os enredos e onde mais elas quiserem. A reportagem de Zero Hora conversou com algumas delas.
O Carnaval de Porto Alegre 2025 ocorrerá nos dias 14 e 15 de março.
Mulheres na gestão
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Estar à frente de uma escola de samba já foi função restrita aos homens. Foi, assim mesmo, com o verbo no passado. Kelly Ramos é presidente da União da Tinga e, também, da União das Entidades Carnavalescas de Todos os Grupos e Abrangentes de Porto Alegre (Uecgapa).
Aos 45 anos, Kelly é a primeira mulher a ocupar o cargo na Uecgapa. Para ela, ter uma mulher à frente de uma das ligas que representam as escolas de samba significa um olhar, muitas vezes, diferenciado:
— É o nosso olhar materno, feminino, de luta, de carinho. O olhar diferenciado que as mulheres têm. Boa parte vê isso com bons olhos e aceita bem, vê a gestão e o engajamento. As mulheres estão fazendo a diferença. É um grande papel que está sendo desenvolvido — explica.
Por outro lado, Kelly observa que ainda há situações em que o preconceito dá as caras:
— Ainda há quem enxerga as mulheres apenas como peito e bunda, que não poderiam estar na gestão do Carnaval, no máximo como secretárias. Já vivi situações em que, mesmo eu estando com a razão, sequer quiseram me escutar por eu ser mulher. É uma barreira que a gente quebra todos os dias, e seguimos na luta para fazer o melhor.
Elas puxando o samba
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Quando as escolas estiverem passando pelo Complexo Cultural do Porto Seco, atente para as vozes que dão ritmo ao Carnaval. Os timbres femininos também embalam os sambas-enredo na avenida.
Basta olhar, por exemplo, o carro de som da Unidos de Vila Isabel, onde Karolina Konzen, 24 anos, é uma das que desfilam com microfone em punho. Conforme a cantora, vozes de mulheres trazem mais leveza ao desfile.
— O próprio nome diz: é harmonia musical. Então, para ter harmonia, a gente precisa ter abertura de voz. E essa leveza só a mulher consegue trazer para o samba. Antigamente, eram só homens e com vozes muito potentes e graves — observa.
Mesmo reconhecendo a resistência que ainda existe, Karolina prefere não se deixar esmorecer. Ela enfatiza que há várias escolas abertas a receber mulheres em carro de som e as notas dos jurados confirmam ser algo positivo e que "faz uma diferença gigantesca".
— A gente enfrenta preconceito sim, mas, aos poucos, vamos conseguir mudar isso — diz a cantora, que segue no tom de quem revela um sonho: ter, um dia, um carro de som totalmente formado por timbres femininos:
— A gente tem mulheres com vozes potentes e que estão aqui para isso. O Carnaval fala tanto em diversidade que a gente consegue sonhar com isso — completa.
De rainha à temista
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Mudar de função dentro das agremiações é até comum já que os apaixonados pelo samba têm suas vidas entrelaçadas com a história das escolas. Um exemplo desta virada na "carreira carnavalesca" ocorreu com Íris Neto.
Rainha do Carnaval de Porto Alegre nos anos 2020 e 2021, ela já tinha 11 anos de muito samba no pé e de concursos quando iniciou uma nova jornada. Agora Íris, aos 38 anos, faz samba com a caneta em punho: é temista de enredo no Estado Maior da Restinga.
— Sempre tive esse flerte com o tema-enredo, de saber mais sobre o que cada escola vai contar — relata ela.
Neste ano, a escola levará para a avenida um enredo sobre São Jorge, padroeiro do Estado Maior da Restinga. Isso exigiu muito trabalho de Íris, junto do carnavalesco da escola, que é o criador das alegorias, das fantasias.
— Pesquisamos sobre São Jorge e o sincretismo com Ogum. O meu trabalho é escrever todos os detalhes que a gente vai contar na avenida. Cabe a mim fazer a parte teórica da prática — detalha a temista.
Uma das demandas de Íris é redigir um material, rico em explicações e aprofundamento, que será entregue aos jurados que vão avaliar o desfile e que precisam compreender as razões e significados de cada elemento apresentado.
A nova caminhada é cheia de desafios, mas ela garante que um de seus principais objetivos é compartilhar o aprendizado. E assim abrir caminho para as que virão no futuro:
— Mostrar para outras mulheres que nós também somos capazes de ocupar espaços de direção, administrativos e intelectuais.
À frente da bateria
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O que leva uma mulher a reger um grupo de ritmistas? Se estivermos falando da Ana Luísa Braga, diretora de bateria da Unidos da Vila Mapa, é o amor pela música e pela escola de samba da qual faz parte desde quando nasceu.
— A minha história (com o Carnaval) começou na barriga da minha mãe, que desfila desde a fundação da Vila Mapa. Nossa família tem uma ala há mais de 15 anos e minha vó é uma das baianas fundadoras. Então, por ser na escola do coração, é diferente, porque não é só trabalho, é amor, então a responsabilidade fica cem vezes maior — conta a musicista de 19 anos.
O programa de educação musical chamado "Orquestra Villa-Lobos", criado na EMEF Heitor Villa-Lobos, na Vila Mapa, zona leste de Porto Alegre, apresentou Ana Luísa aos instrumentos. E o samba lhe abriu portas.
Aos sete anos, ela aprendeu a tocar flauta doce. Aos 15, foi a vez do violoncelo. Ingressou na bateria, chamada Os Implacáveis, em 2019, tocando chocalho.
O esforço e a dedicação a levaram ao posto de diretora. Se, em 2023 recusou o primeiro convite para se tornar diretora do setor de chocalhos por não se sentir pronta o suficiente, no ano passado, com apoio interno da escola, ela aceitou:
— Mas estava muito nervosa. Tive muito o incentivo do diretor Kléber Mença, senti que era a hora e deu certo — conta a instrumentista. Em 2025, a escola vai apresentar enredo sobre Maria Bonita e tem ensaiado muito para levar esse espetáculo ao Porto Seco.
Assim, também pelas mãos de mulheres que fazem a diferença nas mais diversas frentes em suas agremiações, o Carnaval de Porto Alegre avança para mais um ano de desfiles. Na passarela ou fora dela, vestindo fantasia ou a camiseta da escola, onde e como elas estiverem, o toque feminino é uma contribuição valiosa.
Confira a primeira reportagem da série sobre o Carnaval de Porto Alegre
Carnaval de Porto Alegre 2025
Na sexta-feira, 14 de março, desfilam pelo grupo Prata: Filhos de Maria, Protegidos da Princesa Isabel e Realeza. Pelo grupo Ouro, desfilam no local Fidalgos e Aristocratas, Acadêmicos de Gravataí, Copacabana, Imperadores do Samba e União da Vila do IAPI.
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No sábado, dia 15 de março, os desfiles do grupo Prata são: Academia de Samba Praiana, Unidos de Vila Mapa, Império da Zona Norte e União da Tinga. Pelo grupo Ouro, desfilam Império do Sol, Unidos de Vila Isabel, Estado Maior da Restinga, Bambas da Orgia e Imperatriz Dona Leopoldina.
Os ingressos para frisas e camarotes estão à venda na plataforma Sympla (com taxa de conveniência). Assim como nos anos anteriores, as arquibancadas terão entrada gratuita, por ordem de chegada.
Colaborou: Frederico Feijó