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Genebra é uma espécie de capital da diplomacia internacional. Lá, ficam localizados a sede europeia da Organização das Nações Unidas (antes, da Liga das Nações), o prédio da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Organização Internacional do Trabalho (OIT), além de institutos relacionados à migração e refugiados, direitos humanos, comércio exterior, desarmamento e desenvolvimento. Trata-se da segunda cidade mais cara do mundo. Está acostumada a ver desfilar às margens do Lac Léman bem vestidas autoridades globais, com poder de decidir o futuro do planeta.
No entanto, nos últimos dias, a cidade suíça que só perde para Zurique em custo de vida viu cenas antes habituais em países em desenvolvimento: pessoas em fila para receber uma sacola grátis de comida.
Só no sábado (9), foram entregues 1,5 mil kits com legumes embalados a vácuo, biscoitos, achocolatados e queijo. Na fila da doação, feita em instalações de uma pista de patinação – na Espanha, esse tipo de plataforma, normalmente point de turistas, foi usada para acondicionar corpos de vítimas da covid-19 –, estavam trabalhadores pobres e migrantes sem documentos. São os primeiros a sentir os efeitos do coronavírus na economia global.
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Isso tudo ocorre na porção rica da Europa. Nos países mais pobres, como Portugal, o impacto também já se reflete. Segundo previsão do Banco de Portugal, a pandemia cortará, em média, 8,2% da renda das famílias. Para os 10% com maior poder aquisitivo, a perda é de 11,1%. Para os 20% com menor rendimento, o corte é de 8,6%.
O país teve menos casos de infecção e mortes do que outros no continente, mas também implementou medidas de isolamento que vão pesar na atividade econômica – estudo da Euler Hermes estima que as medidas para evitar a propagação da covid-19 resultarão em recessão de 8% este ano em Portugal.
Na semana passada, ministros do Trabalho e Segurança Social do país, da Espanha e da Itália pediram a criação de um salário mínimo europeu. Na proposta, divulgada pelo jornal Público, de Lisboa, eles reivindicam a necessidade de uma resposta integrada para minimizar a crise. A discussão não é nova.
Em janeiro, o mecanismo entrou na agenda da nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. O salário mínimo é de 5 mil euros (R$ 31 mil) por ano em países como Polônia, Hungria e República Checa. Na Alemanha, França e Itália, passa os 13 mil euros (R$ 82 mil).
Na América Latina, a Cepal lançou no dia 4 alerta pessimista: se o avanço da pandemia provocar queda de 5% na renda média da população ativa, o número de pessoas em extrema pobreza passará dos 67,5 milhões atuais para 82 milhões – isso significa 22 milhões de cidadãos (população equivalente ao Chile inteiro) a mais jogados na pobreza extrema.