Em mais uma entrevista projetada para que o presidente ganhe popularidade, Luiz Inácio Lula da Silva se saiu com nova pérola: falar em déficit "é uma bobagem" e coisa de quem está "querendo viver de especulação".
O que alimenta a especulação, na versão de que é uma característicade mercado, não é quem fala em déficit, mas quem o produz. No caso, o governante de plantão. Basta parar de gerar resultado negativo que o assunto some imediatamente. A especulação continua, é bom ressalvar, mas em torno de outro tema.
Para lembrar: quando gasta mais do que arrecada, o governo precisa emitir títulos da dívida, dado o fato incontornável de que dinheiro não nasce em árvore. Para fazer título bancar despesas, precisa ser vendido. E quem compra? O "mercado", que distribui para investidores e poupadores. Simples assim.
Lula discursa em busca da popularidade perdida, mas corre, de novo, o risco de contratar efeito contrário. Foi o que ocorreu ao chancelar a má decisão de anunciar isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil junto com o corte de gastos. O resultado foi a alta do dólar, que fez a inflação subir e ajudar a minar a aprovação que agora tenta recuperar.
A manifestação completa do presidente, para deixar clara a intenção:
— Isso é uma bobagem (eliminar déficit). O déficit fiscal foi zero, ninguém tem mais responsabilidade de fazer as coisas corretas do que eu. Se você for fazer uma dívida para comprar uma casa, tudo bem, mas não se pode gastar à toa. Eu não estou governando pela primeira vez, eu fui o presidente que paguei o FMI, fiz uma reserva internacional que o Brasil não tinha. Quem fala disso está querendo viver de especulação.
É verdade que Lula pagou o FMI e construiu uma reserva cambial importante, que agora ajuda o Brasil a resistir a crise. O problema é que déficit não se curva a currículo. E se é verdade que o governo Lula 3 cumpriu a meta de déficit conforme a regra prevista no arcabouço fiscal, não significa que não houve resultado negativo.
Logo depois da declaração, o dólar, que caía, voltou a subir e retornou ao patamar de R$ 5,70 perdido horas antes. No final da manhã, voltou a baixar, mas segue no nível em que fechou na véspera.