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O linchamento chegou ao Rio Grande do Sul.
Na quarta-feira (26), uma menina de nove anos foi resgatada depois de sofrer abusos no porão de uma loja de conveniência, em Tramandaí, no litoral gaúcho.
O suspeito de sequestrar e estuprar a criança, Marco Antônio Bocker Jacob, 61 anos, tinha antecedentes por vários crimes, incluindo tentativa de feminicídio, tráfico de drogas, furto e maus-tratos a animais.
Cerca de cinquenta pessoas revoltadas com a perfídia do abuso a uma criança indefesa invadiram o local durante o resgate, e agrediram o idoso sem piedade. Ele não resistiu aos ferimentos.
A população brasileira não vem mais acreditando no Sistema Judiciário. Não vem mais confiando na execução das leis. Está cansada da impunidade, esgotada da violência e da morte aniquilando os afetos prediletos de suas vidas. São sempre criminosos reincidentes. São sempre figurinhas repetidas da delegacia em saídas temporárias.
Como justificar a liberdade de alguém que já foi preso e solto em três oportunidades diferentes? Marco Antônio cumpria pena até semana passada.
Como alguém, com seu histórico de perversão, mantém comércio numa das praias mais famosas do estado?
Conforme relatos da Brigada Militar e da Polícia Civil, o suspeito utilizou o picolé para atrair a menina que brincava sozinha em praça na frente da sua loja de conveniência, na Rua São Marcos. Quando ela entrou no estabelecimento, o homem a prendeu em um porão.
A pequena em desespero, agonizante, foi localizada num alçapão, cujo acesso estava disfarçado com engradados. Após ser violentada, suportou mais de 12 horas no cativeiro, jurando que iria morrer.
O rapto premeditado com requintes de crueldade, que aconteceu na vizinhança da família da menor de dez anos, abalou a comunidade.
Não tem como não pensar que poderia ser a nossa filha, a nossa irmã, atraída por um doce para o inferno ilimitado da maldade humana.
Se o caso não fosse solucionado, quantas outras crianças poderiam amargar o mesmo fim?
Quantas presas ele teria que colecionar para ser definitivamente trancafiado numa cela?
Sentenças não são honradas ao pé da letra. Testemunhamos uma recorrência absurda de estupros, de assaltos, de latrocínios e de homicídios de quem já se encontra preso ou acabou de ser libertado.
Nossos homens de toga, com o poder do martelo de madeira, precisam levar a sério o fenômeno social.
Já ocorre no país um linchamento a cada dois dias. Não é mais uma exceção. Não é mais um foco isolado.
Recentemente, no dia 18, um suspeito de matar um menino de 2 anos foi linchado em Tabira, no sertão de Pernambuco.
Assim como em setembro do ano passado, um suspeito de estuprar e matar um bebê terminou queimado vivo pela população de Jutaí (AM), município que fica a 934 quilômetros de Manaus.
É a justiça pelas próprias mãos, porque as unhas já estão encardidas há muito tempo do sangue seco das vítimas.