
Ferramenta considerada um seguro contra as recorrentes estiagens, a irrigação continua ocupando um espaço tímido na produção de grãos do Rio Grande do Sul. Da burocracia ao entendimento de que a tecnologia não pode ser a única alternativa do produtor rural, alguns gargalos ainda dificultam a implementação efetiva. Ainda assim, a adoção vem ganhando corpo, ano após ano. E esse foi o tema do Campo em Debate realizado no auditório principal da 9ª ExpoAgro Cotricampo, em Campo Novo, nesta sexta-feira (21): o que avançou e o que ainda precisa avançar na pauta da irrigação no Estado.
Presidente da Cotricampo, que organiza a feira, Gelson Bridi abriu o debate afirmando que, no seu entendimento, o Programa de Irrigação do governo do Estado "não tem chegado na ponta", aos produtores rurais. Atualmente, o Estado conta com apenas 4% da área de sequeiro irrigada, conforme a Secretaria Estadual da Agricultura.
À frente da pasta, Clair Kuhn reconheceu a dificuldade. Segundo ele, há gargalos ambientais para reservação de água, de acesso a crédito e de energia elétrica a serem resolvidos nas propriedades para a irrigação avançar no Estado. Ainda assim, entende que há procura. Entre a primeira e a segunda fase do programa estadual, houve mais de 700 inscrições de projetos irrigantes para receber subvenção de 20% no financiamento.
Marcelo Camardelli, secretário-adjunto estadual do Meio Ambiente, também apresentou avanços da pauta na pasta em que atua. A automatização do sistema de outorga e a ampliação do licenciamento de barragens a municípios (não apenas mais a Fundação Estadual de Proteção Ambiental) são dois deles.
— Estamos trabalhando no sentido de trazer maior clareza e segurança jurídica frente às formalidades necessárias inerentes à irrigação — frisou o secretário-adjunto.
Kuhn, da Agricultura, aproveitou o evento para reforçar a importância da irrigação no setor produtivo:
— É a garantia de produção na propriedade. É um dos melhores seguros agrícolas que o produtor pode ter.
Bridi, à frente da cooperativa que soma 8 mil associados, concordou:
— A irrigação ajuda a não ter inadimplência no campo. Ajuda a pagar muita conta de dívidas que vêm se arrastando nos últimos anos.
No entanto, Marcos Kazmierczak, especialista em desastres ambientais, apresentou uma série de estatísticas apontando a gravidade das mudanças climáticas. Segundo ele, por exemplo, a partir de estudos da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), não haverá água suficiente para irrigar todas as lavouras no Estado. Por isso, mais do que irrigação, ele propõe:
— Temos que desenvolver novas variedades toleráveis a mais seca, além de práticas adaptativas, como alteração das épocas de semeadura e manejo eficiente das águas.
O evento foi mediado pela jornalista Gisele Loeblein.