Um policial militar, um advogado e um empresário são investigados por suspeita de envolvimento num esquema de agiotagem e extorsão. Uma moradora do Litoral Norte alega ter sofrido ameaças de tortura e de incendiarem seu estabelecimento, caso não quitasse uma dívida. O local chegou a ser alvo de disparos. A Polícia Civil e a Corregedoria-Geral da Brigada Militar cumprem três mandados de prisão temporária nesta quinta-feira (6) em Porto Alegre e Cachoeirinha, na Região Metropolitana.
O caso chegou à polícia no fim do ano passado, quando uma vítima de Xangri-lá procurou ajuda. A mulher relatou ser ameaçada a pagar uma dívida — que, segundo ela, já havia sido quitada. Foi alvo de mandado de prisão nesta manhã o PM Jocimar da Silva Pereira, na zona norte de Porto Alegre.
A polícia apreendeu com o soldado uma pistola, munições e uma máquina de cartão. Os fardamentos da BM também foram recolhidos. Pouco antes de os policiais ingressarem no local, o PM efetuou três disparos contra o próprio telefone celular. Apesar dos danos causados, a polícia vai tentar extrair as informações do aparelho.
A polícia segue em busca do advogado e do empresário, investigado por agiotagem. Na casa do empresário, foi apreendida uma arma, munição e cartões bancários.
Durante o cumprimento de buscas na empresa do homem investigado como agiota, a polícia verificou que um funcionário que estava no local tinha mandado de prisão em aberto por homicídio em outro caso sem relação com a extorsão. Em razão disso, este homem foi preso no local.
A polícia pediu as prisões dos três à Justiça durante apuração que investiga os crimes de extorsão, associação criminosa e crime contra a economia popular (relativo à agiotagem). Segundo a Polícia Civil, a dona de uma imobiliária buscou o empresário para obter dinheiro emprestado. Ela relatou aos policiais que pegou R$ 300 mil e teria pago cerca de R$ 600 mil. Mesmo assim, segundo a polícia, continuaria sendo cobrada.
— Temos envolvimento de um policial militar, que já foi investigado em 2019 e afastado das funções por prática de milícia e extorsão a comerciantes, um agiota, que se apresenta como empresário, e também um advogado. Os três começam com cobranças exacerbadas de dívidas inexistentes, já quitadas, com juros exorbitantes, trazendo toda a forma de terror, medo, para cobrir dívidas inexistentes ou extremamente abusivas a partir de valores tomados por empréstimos — afirma o delegado Cristiano Reschke, diretor da 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana.
“Vou torturar teu filho”
No início de novembro, um homem foi até um estabelecimento da companheira da mulher e cobrou novo pagamento de R$ 250 mil. Segundo a investigação, tratava-se de um soldado da Brigada Militar, alvo de mandado de prisão nesta manhã. A mulher entregou aos investigadores as conversas que teriam sido trocadas entre os dois neste período.
Em alguns trechos, há ameaças de tortura e de colocar fogo ao estabelecimento. “Não te preocupa que eu não vou te matar, só vou botar fogo em tudo que botar a mão, pra sentir como é ruim perder dinheiro”, diz um deles.
Em outro, as ameaças são direcionadas ao filho da vítima: “Vou torturar teu filho olhando pra ti, matamos um contra dentro da cadeia hoje, tu acha mesmo que vai escapar de mim”.
Segundo a polícia, o PM teria repassado uma conta de Pix para a mulher enviar os valores. Na ocasião, a loja foi alvo de disparos de pistola durante uma madrugada, que estilhaçaram a vidraça. Um veículo passou pelo local por volta das 4h, e o carona atirou na direção do estabelecimento. Menos de uma hora depois, a mulher recebeu novas mensagens intimidatórias.
As imagens de câmeras obtidas pela polícia não permitiram identificar quem foi o autor dos disparos. A suspeita, no entanto, é de que fosse uma forma de fazer com que a vítima efetuasse os pagamentos. Depois disso, a mulher decidiu procurar a Delegacia de Polícia.
PM já havia sido preso
Em dezembro de 2019, o soldado Jocimar da Silva Pereira havia sido preso durante uma operação da Corregedoria-Geral da Brigada Militar – ele foi libertado, por decisão da Justiça Militar. Zero Hora busca junto à BM atualização sobre a situação do PM.
A ofensiva na época afastou 11 policiais militares e resultou na prisão de cinco deles. O grupo, que pertencia ao 24ª Batalhão de Polícia Militar em Alvorada, era investigado por cobrança de valores de comerciantes, desvio de material apreendido, associação com traficantes de drogas e com o jogo do bicho.
A investigação apurou que comerciantes vinham sendo cobrados pelos policiais, que prometiam segurança em troca de dinheiro. Quem não pagasse, poderia estar em risco. A apuração também descobriu que drogas e dinheiro apreendidos em ações em pontos de venda não iam para a Polícia Civil, mas para o bolso dos policiais.
Contrapontos
O que diz a advogada de Jocimar da Silva Pereira, Edina Prates:
"A acusação é inverídica. Não há prova de cobrança dele e envolvimento com agiotagem. Num dado momento, ele até participou de negociação com a suposta vítima, mas em nenhum momento houve ameaça ou violência da parte dele. Ele nunca disparou tiros. Não há vinculação nem prova de que ele efetuou esses disparos.
A única prova para requerer a prisão temporária é a presença dele na loja. Ele entrou de forma passiva e assim saiu. Ele destruiu o celular porque a polícia chegou dizendo que era a Corregedoria Militar e ele tinha medo de represálias por conversas nas quais discutia sobre outras operações da Corregedoria.
Em 2019, ele foi conduzido em flagrante por suposto peculato (furto de munição da BM) por uma autoridade militar que não era a autoridade formal. Na audiência de custódia, o flagrante não foi homologado pois a prisão era irregular. Na sequência, ele foi absolvido, pois a BM não mantinha controle sobre as munições e um lote que supostamente estava com ele foi comprado só dois anos depois. Inclusive, o próprio Ministério Público pediu a sua absolvição."