
Por André Islabão*
Há pouco mais de um século, o pensador espanhol Ortega y Gasset cunhava uma frase que entraria para a história da filosofia ao escrever que "Eu sou eu e minhas circunstâncias". Com isso, ele queria nos recordar da importância das circunstâncias — boas ou ruins — que nos acompanham ao longo de nossas vidas e determinam em grande parte aquilo que somos.
Na área da medicina e da saúde, tais circunstâncias se refletem em um conceito fundamental — embora relativamente esquecido — que se refere aos chamados "determinantes sociais da saúde".
Trata-se daquelas condições de vida que podem levar ao surgimento de doenças, seja como causa direta ou por aumentarem as chances de uma doença se manifestar ou piorarem seu prognóstico ao dificultar o acesso aos cuidados de saúde necessários.
Há vários exemplos disso, como a baixa escolaridade e a solidão, mas é comum que a pobreza esteja envolvida como um importante determinante de doenças e até mesmo de menor longevidade.
Sabe-se que, dentro de uma mesma cidade, a expectativa de vida pode ser até 15 anos maior nos bairros mais abastados em relação às zonas mais empobrecidas, em grande parte pela maior incidência de doenças nessa população carente. Além disso, a pobreza costuma se associar a hábitos prejudiciais à saúde, como o maior consumo de alimentos ultraprocessados e o tabagismo.
Determinantes sociais
O problema de desconsiderarmos os determinantes sociais da saúde é tratarmos questões que são em grande medida sociais — as quais deveriam ser abordadas com políticas públicas — como se fossem questões puramente médicas e passíveis de correção com um medicamento qualquer.
Ao agirmos assim, o resultado costuma ser no máximo uma melhora parcial e temporária. Afinal, se nada fizemos para mudar as circunstâncias que levaram ao surgimento daquela doença, é esperado que ela se perpetue ou fique refratária ao tratamento.
Embora essas intervenções médicas possam trazer benefício em nível individual, elas jamais resolverão o problema em nível de sociedade
Se essa ideia pareceu familiar ao leitor é porque várias doenças comuns atualmente têm determinantes sociais importantes. É evidente que a epidemia de obesidade está intimamente relacionada ao sedentarismo e ao consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, como já foi bem demonstrado por vários estudos científicos.
Da mesma forma, boa parte do aumento atual nos diagnósticos de transtornos mentais em crianças e adolescentes pode estar relacionada ao uso excessivo de telas em dispositivos eletrônicos e das redes sociais com seus algoritmos doentios.
Não é difícil deduzir disso que continuar tratando a epidemia de obesidade apenas com drogas caríssimas e cirurgias invasivas sem mudar as causas sociais que perpetuam o problema é uma receita infalível para o fracasso terapêutico e econômico em longo prazo.
Embora essas intervenções médicas possam trazer benefício em nível individual, elas jamais resolverão o problema em nível de sociedade.
O papel das políticas públicas
Da mesma forma, o uso crescente de medicamentos psiquiátricos nos jovens em nada contribui para o controle do problema na sociedade como um todo se isso não vier acompanhado de políticas públicas, como a limitação do uso excessivo de telas e redes sociais ou mesmo a recente restrição do uso de celulares nas escolas.
Um dos melhores exemplos de política pública bem-sucedida é o caso das restrições ao tabagismo nas décadas passadas, como a limitação dos ambientes para o fumo e a adoção de uma rotulagem radicalmente esclarecedora nas embalagens de cigarros.
Ainda que algumas políticas públicas possam parecer penosas inicialmente, são elas que têm mais chances de trazer benefícios duradouros para a sociedade
Tais medidas resultaram em reduções na prevalência de câncer de pulmão e de doenças cardiovasculares que jamais seriam obtidas apenas com o uso de medicamentos ou programas de rastreamento. É evidente que o sucesso das campanhas antitabagismo poderia servir de inspiração para campanhas semelhantes que visassem reduzir a prevalência de obesidade e de transtornos mentais na sociedade.
Algumas políticas públicas que podem reduzir a prevalência de obesidade incluem a proibição da venda de alimentos ultraprocessados em escolas associada à promoção local de alimentos saudáveis, a restrição das propagandas de ultraprocessados, sua taxação diferenciada e até mesmo uma rotulagem que esclareça os riscos envolvidos no consumo. Isso sem falar em questões urbanísticas como a criação de mais áreas verdes e ciclovias.
No caso das doenças mentais, tais políticas poderiam incluir a aplicação adequada das restrições de idade para uso das redes sociais, a atribuição da parcela justa de responsabilidade a essas empresas e seus algoritmos e a iniciativa recém-implantada de restringir o uso de celulares nas escolas.
Vidas plenas e felizes
Voltando às nossas circunstâncias, é bem menos conhecida a segunda parte da frase de Ortega y Gasset, a qual em sua forma completa diz que "Eu sou eu e minhas circunstâncias, e se não salvo a elas não me salvo a mim". Talvez o autor já soubesse desde aquela época que somos animais intimamente relacionados ao ambiente, às pessoas e a tudo mais que nos cerca. E, se tais circunstâncias forem demasiadamente adversas, é bastante difícil que possamos ser saudáveis ou viver vidas plenas e felizes.
Está claro que alguns problemas de saúde modernos têm um componente circunstancial importante. E, ainda que algumas políticas públicas possam parecer penosas inicialmente, são elas que têm mais chances de trazer benefícios duradouros para a sociedade.
No caso da "epidemia" de obesidade e transtornos mentais, a escolha que temos de fazer hoje é entre implementar políticas públicas eficazes ou manter tudo como está e seguir apenas remediando a situação com intervenções de alto custo e com benefício apenas parcial e temporário. Mas é preciso lembrar que nosso futuro é definido não apenas pelo que fazemos, mas também — e em grande medida — por tudo aquilo que deixamos de fazer.
* Médico e escritor, autor do livro A Arte de Espantar Dinossauros (2024)