
A sociedade está em constante evolução. Nas últimas décadas, com a tecnologia evoluindo em escala exponencial, o comportamento humano vem sendo profundamente impactado. Diante disso, o choque geracional com quem nasceu em um mundo mais analógico é cada vez mais perceptível.
Ao mesmo tempo, discute-se o quanto as crianças devem ter voz no núcleo familiar - o que é bem-vindo, mas enseja uma série de questionamentos e angústias nos responsáveis pela criação. Para a pediatra e médica cooperada da Unimed Porto Alegre Adriana do Espírito Santo, o que se vê, muitas vezes, é um exagero de liberdade para tomada de decisões, em idades nas quais ainda não se goza de maturidade para isso.
— É necessário entender que, apesar da necessidade de liberdade, tem que organizar para a criança a hora de parar, o que ela não pode escolher, como passar a noite no celular — exemplifica.
A influenciadora Gabriela Camini, 30 anos, e o autônomo João Nunes, 32, concordam com a médica. Eles moram em Viamão e são pais de João Luca, de nove anos, e Pedro, que tem dois. Por enquanto, o mais velho é quem começa a ter alguma autonomia.
— A gente acredita que ele é novo para dar conta de tudo, ainda está em formação. Tudo que ele tenta tomar decisão, ter liberdade, vai ser em favor próprio e a gente precisa guiar. Em geral, ele tem muita liberdade. Pode abrir a geladeira e comer, tomar banho quando quiser. No entanto, se passou do horário e ele ainda não foi, a gente manda — explica a mãe.
A psicóloga e neuropsicóloga Sofia Milene da Silva defende que a criança seja enxergada enquanto um indivíduo, desde sempre, para que se torne uma pessoa autônoma, um adulto funcional e independente no futuro. Ela pondera, no entanto, que isso não pode ganhar contornos de permissividade. Para Sofia, é importante analisar o quanto a criança já consegue compreender e executar em cada fase de seu desenvolvimento e, então, abrir espaço para que seja inserida nas tarefas e nas escolhas da casa. Assim, é estimulada a pensar de forma organizada quando precisa tomar decisões.
— Não é dar o que a criança quiser, mas permitir que tenha um pensamento crítico sobre o que quer. E ouvi-la ponderar, ainda que não seja atendida em todos os momentos. Quando ela disser que não quer tomar banho, os pais devem mostrar que ouviram, validaram, mas que é necessário. Devem dar limite — comenta.
Olhar para si
Adriana vê com bons olhos esse tipo de iniciativa e lamenta que as pessoas encontrem cada vez mais dificuldade em colocar limites. Ainda que seja compreensível, em função da vontade de dar espaço para a criança, a definição de regras passa a sensação de segurança, diminuindo até mesmo a incidência de doenças mentais no futuro. A liberdade e o limite dividem-se por uma linha bastante tênue – um aprendizado que os pais precisam fazer a vida inteira.
A gente passou de um momento na história da infância em que as crianças nada podiam, para um momento em que tudo podem
ADRIANA DO ESPÍRITO SANTO
Pediatra
A pediatra destaca que é importante notar que a chave para ser um bom orientador está em conhecer, reconhecer e tratar as próprias fragilidades. A seguir, tomar para si o protagonismo de que aquela decisão precisa ser do adulto.
— A gente passou de um momento na história da infância em que as crianças nada podiam, para um momento em que tudo podem. Podem destruir o laptop de trabalho dos pais? É o momento em que se deve dizer não. Muitas famílias têm dificuldade, acham que é desamor, e na verdade a gente tem que passar a ideia de que esse limite na verdade é amor — defende a pediatra.
Infância da contemporaneidade
Quando se questiona as principais diferenças entre a infância de duas ou três décadas atrás em relação aos dias atuais, a primeira resposta é unânime: telas. O uso excessivo de dispositivos que promovem a chamada interação passiva – em que o espectador ouve, vê, mas não tem nenhum tipo de troca – combinado com a redução dos espaços de convivência e a facilidade de acesso a alimentação pouco (ou nada) saudável levou a um comportamento sedentário e de vício no uso dos eletrônicos.
— A associação desses dois fatores é ruim, muito deletéria ao longo prazo. A saúde infantil impacta em todo o resto da saúde. Os primeiros 10 anos de vida determinam muita coisa de saúde física e psíquica. O investimento é para o resto da vida — alerta Adriana.
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Essa realidade também bate à porta na casa de João Luca e Pedro, despertando a atenção dos pais. Enquanto o caçula mal sabe o que são as telas, o primogênito tem uma relação bem mais próxima.
João tem sonho de ser blogueiro, já apareceu na TV e também tem representatividade no meio digital. De acordo com a mãe, ele tem uma dinâmica bem positiva com o digital, se identifica com isso e tem aceitação grande do público.
Gabriela conta que João demorou alguns anos para aprender a andar de bicicleta e, hoje, para entretê-lo por mais tempo, os pais colocam um número de voltas na rua como meta para que ele alcance.
Ainda assim, ele tem uma rotina que inclui responsabilidades na casa e a tela fica restrita aos fins de semana: uma hora na sexta, outra no sábado e tempo livre aos domingos. Mas isso quando está em casa, pois a família costuma encontrar amigos para churrascos, banhos de piscina e frequentar parques da cidade e de Porto Alegre.
— Quando a gente era pequeno, via os desenhos e brincava de ser os personagens, na rua. Os Power Rangers, por exemplo. Eles nem sabem o que é brincadeira manual, como pião ou jogo de taco — lamenta o pai.
Após a chegada do segundo filho, o casal tomou um caminho diferente. Pedro não teve qualquer acesso a telas até ter cerca de um ano e quatro meses. Dessa forma, acabou não despertando o interesse para elas. Hoje, nem mesmo uma TV ligada no cômodo ganha sua atenção.
— Ele brinca e explora muito. Pode ser por personalidade diferente, também, o João sempre foi uma criança mais tranquila e o Pedro, agitado. Tem uma energia surreal. Mas nós agimos de forma diferente com os dois — reflete Gabriela.
Por ser digital influencer, a mãe tem uma vida bastante ativa na internet. João, mais afeito às telas e mídias sociais, também tomou gosto e já participa de algumas ações, por conta própria. Pedro ainda não tem esse protagonismo, mas arrisca pelo menos um papel coadjuvante de vez em quando.
— Eu ligo a câmera e ele já sorri. Peço para ele se preparar e ele fica durinho e sorri para a foto – diverte-se a mãe.
Efeitos nocivos
Uma geração menos ativa já começa a se apresentar nos consultórios. Adriana comenta que os casos mais comuns têm relação com esse sedentarismo, aumentando a incidência de obesidade infantil, com consequente síndrome metabólica.
A combinação entre hipertensão arterial com alto nível de açúcar no sangue, anormalidade no nível de colesterol e o excesso de gordura corporal em torno da cintura aumenta significativamente o risco de ataque cardíaco e acidente vascular cerebral (AVC).
A gente vê muitas crianças sem interesse em brinquedos, andar de bicicleta, jogar uma bola, brincar com um carrinho. É preciso despertar de novo esse interesse da criança pelo brincar, que é uma forma de aprendizagem
SOFIA MILENE DA SILVA
Psicóloga e neuropsicóloga
Em termos comportamentais, Sofia vê muitas crianças com dificuldade de aprendizagem e impacto no desempenho escolar. Entre os adolescentes, casos de ansiedade e depressão são mais frequentes. Em ambos os públicos, a presença constante das telas, por muitas horas consecutivas, é regra.
— A gente vê muitas crianças sem interesse em brinquedos, andar de bicicleta, jogar uma bola, brincar com um carrinho. É preciso despertar de novo esse interesse da criança pelo brincar, que é uma forma de aprendizagem — propõe.
Observando a rotina de famílias, Adriana orienta que os pais contem com apoio de um pediatra, dos professores e da família. Segundo ela, as famílias estão muito nucleares e pouco acessíveis.
— Como diz o ditado: “para criar uma criança, precisa-se de uma aldeia” — conclui a pediatra.