
Com espaços amplos e maior variedade de produtos a preços competitivos, os atacarejos se expandem em ritmo acelerado no Rio Grande do Sul. Somente a Região Metropolitana deve ganhar pelo menos sete novas unidades até o fim de 2025, além de outras recém-inauguradas ou previstas para abertura a curto e médio prazos.
O modelo combina atacado e varejo em um único lugar para atrair não só lojistas, mas o consumidor final. Para isso, nos últimos anos, o setor vem adquirindo novas características, como uma maior proximidade dos centros urbanos e a incorporação de serviços de açougue e padaria. Inaugurado nesta semana em Novo Hamburgo, o novo empreendimento do Fort Atacadista tem até cafeteria. Já na loja da marca em Canoas há um restaurante.
As sete unidades prestes a abrir identificadas pela reportagem de Zero Hora ficam em Porto Alegre e outras quatro cidades do entorno.
Na Capital, o Grupo Zaffari deve inaugurar seu segundo atacarejo, sob a marca Cestto, até a metade do ano. O primeiro funciona na Avenida Wenceslau Escobar, inaugurado em 2024, e o próximo, em fase final de obras, está sendo instalado na esquina entre as avenidas Protásio Alves e Ary Tarragô.
Ainda na Capital, o Grupo Imec abrirá mais um atacarejo da marca Desco. Com inauguração marcada para julho, a loja ficará na Avenida Assis Brasil.
Em breve, Viamão terá dois novos atacarejos. Ambos estão sendo construídos ao mesmo tempo na RS-040. Um deles será um Cestto, do Grupo Zaffari, que está investindo R$ 114 milhões em uma loja de 17 mil metros quadrados. O outro é da Comercial Zaffari, com sede em Passo Fundo, e que usa a marca Stok Center no seu braço de atacarejos. A 040 em Viamão já tem uma unidade do Atacadão, que pertence ao Carrefour.
Já o Macromix, marca de atacarejos do grupo Unidasul, de Esteio, abrirá mais uma loja na cidade onde possui sua sede e outra em Cachoeirinha. Os dois inauguram neste ano.
Em Gravataí, o Fort Atacadista abrirá mais uma loja até agosto. E outras duas marcas do segmento negociam para entrar na cidade, diz o prefeito Luiz Zaffalon.
O Grupo Zaffari prepara a estreia da marca Cestto em Canoas, com uma loja à margem da BR-116 em fase de licenciamento, ainda sem data para abertura. Este novo empreendimento ficará ao lado de um hipermercado Bourbon, que também pertence à companhia gaúcha.
Canoas também acaba de receber uma unidade do Via Atacadista, do Grupo Passarela, de Santa Catarina, construído com R$ 22 milhões junto à 116.
A Comercial Zaffari é outra que inaugurou nesta semana uma nova unidade em Canoas, no bairro Mato Grande. A companhia ainda prepara lojas em Lajeado, no Vale do Taquari, Imbé, no Litoral Norte, Santa Maria, na Região Central, Erechim, no Norte, e Pelotas, no sul do Estado.
Em crescimento
Em três anos, a participação do atacarejo nas vendas do varejo alimentar, que inclui ainda mercados de menor porte, supermercados e hipermercados, passou de 47% para 49% no Rio Grande do Sul, de acordo com um levantamento da consultoria NielsenIQ.
— Com a volta da inflação, a busca pelo melhor preço acaba sendo fator de decisão para o consumidor final. Neste cenário, os atacarejos se destacam frente aos demais canais. Hoje, esse segmento cresce acima de outros formatos de loja do varejo moderno. No acumulado do ano, cresceu 13,9% no Brasil e 20,3% na Região Sul — diz Bruno Achkar, gerente de atendimento à indústria da NielsenIQ.
O presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Antônio Cesa Longo, diz que é difícil mensurar com exatidão o número de atacarejos que existem no Estado porque o segmento ainda não conta com uma classificação de atividade econômica própria.
— É um formato novo que oferece boas oportunidades para o pequeno comerciante e também para o consumidor final. As marcas de atacarejo que não abrem lojas, não crescem. Essas grandes estão entrando aqui em busca de um novo público. Tem o cara que quer a conveniência, a comodidade, a variedade de produtos, promoções. O consumidor está mais exigente — diz o presidente da Agas.
Questionado se o mercado pode ficar saturado com tantas novas lojas, Longo, que representa o setor, pondera:
— Hoje, o cliente tem muita opção. Não acho que esteja saturado. Claro, no entorno, ele (atacarejo) absorve a venda de quatro ou cinco supermercados. Mas as cidades se expandem, crescem. O atacarejo gera oportunidades de emprego e isso é bom.
Segundo os empresários, em média, cada atacarejo gera entre 150 e 200 vagas diretas de trabalho.
Transformação
Comprado pelo Carrefour em 2022 junto com as lojas do Big, o Nacional passa por uma onda de fechamentos. Quando a marca foi adquirida, a promessa era de que seria mantida. Porém, desde 2023, o grupo francês optou por encerrar dezenas de operações que ficam no sul do Brasil. Algumas delas foram vendidas e transformadas em atacarejos pelos novos donos.
É o caso do Grupo Imec, que comprou duas lojas do Nacional no Litoral Norte para transformar em atacarejos do Desco.
Antes disso, o próprio Carrefour chegou a transformar antigos hipermercados do Big em atacarejos da marca Atacadão. Esses movimentos se deram em cidades da Região Metropolitana.
Público mudou
No atacarejo, o que mais agrada o técnico em informática Tomas Guimarães, 29 anos, é a parte de padaria. Ao sair do trabalho, ele costuma ir ao Atacadão da Avenida Sertório, em Porto Alegre, para lanchar antes de enfrentar o trajeto para sua casa, que fica em Novo Hamburgo.
— Acabo sempre comprando algo, sou impulsivo. Vejo uma promoção e tenho que levar — disse Tomas, que acabara de adquirir um conjunto de copos de vidro por R$ 14,90.
Já o aposentado e ex-dono de lanchonete Valmir Rossi, 65, é cliente antigo de outra unidade do Atacadão em Porto Alegre. Ele já frequentava a loja do bairro Anchieta quando a estrutura ainda era da rede Makro, que a vendeu em 2021 e encerrou suas atividades no Brasil em 2023.
— Tinha uma catraca lá na frente, só entrava apresentando o CNPJ. No final, conferiam a nota para ver se os produtos no carrinho eram os mesmos. A estrutura ainda é muito parecida com a do atacado, mas agora posso vir com minha mulher e minhas filhas — diz.

Fazer compras virou um programa familiar para Carla Oliveira Borda, 41, que estava no Via Atacadista de Canoas na terça-feira (26). No carrinho, além das compras, ela carregava seus dois filhos. Há dois anos ela frequenta atacarejos em busca de preços mais baixos, e a chegada de uma nova loja perto de casa tornou as compras mais fáceis.
— Chego a vir com eles duas vezes na semana. Costuma ser mais barato comprar aqui, mas tem que ficar de olho nas oportunidades. Nem sempre é mais em conta. Na semana passada, uma bandeja de ovos estava R$ 26. Hoje, vi que está R$ 15. Então, vou ter que levar — disse Carla.
Aposta catarinense em solo gaúcho
Duas redes de Santa Catarina têm apostado com força no Rio Grande do Sul. Uma delas é o Fort Atacadista, do Grupo Pereira, que inaugurou na quarta-feira (26), em Novo Hamburgo, o seu quinto atacarejo no Rio Grande do Sul. A empresa também está presente em Canoas, Viamão, Caxias do Sul e Santa Cruz do Sul, além de ter um escritório e um centro de distribuição em São Leopoldo.
A primeira unidade do Fort Atacadista inaugurou em 2023, ao lado do ParkShopping Canoas.
— Temos ferramentas para mapear os melhores pontos e trabalhamos com consultorias. Existem regiões mais afastadas, onde cabem nossas lojas, mas procuramos zonas primárias, com mais gente no entorno ou que o deslocamento, de carro, é de cinco a 10 minutos — diz Lucas Pereira, diretor comercial do grupo.
— Teremos mais 10 lojas no Rio Grande do Sul até o final de 2026. Viemos para cá com a meta de dobrar o faturamento da empresa — completa Pereira, que diz gerar 240 empregos diretos em cada loja.

Sobre a chegada do Fort à Capital, o gerente de marketing Gustavo Petry responde:
— A vontade é grande. Já houve especulações, mas ainda não temos uma data. Antes, temos Gravataí neste ano: uma loja 3 mil metros quadrados de área de venda. Também estamos de olho em São Leopoldo.
O também catarinense Via Atacadista, do Grupo Passarela, estreou em Porto Alegre na movimentada Avenida Assis Brasil há um ano. O presidente da empresa, Alexandre Simione, diz que o gaúcho recebeu bem a marca, que também está presente em Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Farroupilha, Santa Cruz do Sul e Canoas.
— Neste ano, vamos inaugurar lojas em Lajeado, Venâncio Aires, Novo Hamburgo, Santa Maria e mais uma em Bento Gonçalves. Teremos outras no ano que vem. Estamos olhando seis cidades. Vamos nos pulverizar na Região Metropolitana e no Vale do Sinos — diz Simione.
Em média, cada loja exige um investimento de R$ 35 milhões a R$ 40 milhões, sem contar os produtos para abastecê-las.

— Hoje, 95% da nossa venda vêm do consumidor final. O atacarejo se moldou e foi entendendo esse cliente, que frequenta nossas lojas em busca de economia — diz o presidente da Via Atacadista, que completa:
— Temos que tomar cuidado para o mercado não ficar saturado. Já está ficando. Isso abre espaço, de novo, para os supermercados, que passam a focar em um mix mais exclusivo de produtos premium. Varejo é cíclico.