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A onda de calor que atinge o Rio Grande do Sul potencializa problemas do cotidiano daqueles que dependem de ônibus para se deslocar pela Região Metropolitana de Porto Alegre. Demora, superlotação e falta de ar-condicionado deixam a experiência do passageiro ainda pior quando a temperatura ultrapassa os 30°C.
Zero Hora percorreu, nesta terça-feira (26) de manhã, o trajeto completo da linha Gravataí/Ponte, da empresa Sogil, que sai da parada 69, no bairro Parque dos Anjos, e vai até o terminal Rui Barbosa, junto ao Pop Center, no centro de Porto Alegre.
A linha é do sistema de transporte metropolitano (que se desloca por mais de uma cidade). Como o veículo é da categoria comum, não possui ar-condicionado e pode transportar pessoas em pé.
Durante duas horas, a reportagem esteve dentro do coletivo com um termômetro portátil. O equipamento registrou marcas que oscilaram entre 33º e 36ºC. Na prática, passageiros se abanavam, suavam e reclamavam do calor intenso.
Desafio antes mesmo de começar o deslocamento
As dificuldades começam antes mesmo do embarque. A espera na parada durou 35 minutos. Nesse período, entre 9h30min e 10h05min, o termômetro registrou temperaturas entre 33ºC e 34ºC.
A dona de casa Rafaela Assis, 37 anos, chegou no ponto no mesmo horário e aguardou pelo mesmo ônibus.
— É muito ruim porque além do calor na parada, dentro do ônibus também é muito quente, não tem alívio. No ônibus é ainda pior que aqui — conta.
O embarque ocorreu às 10h05min. O ônibus estava com todas as janelas abertas, estratégia utilizada em coletivos sem refrigeração, mas que em dias de calor extremo não traz o efeito esperado, já que o ar que vem da rua apenas mantém o abafamento.
Na primeira parte do trajeto, passando pelo centro de Gravataí, o termômetro marcava 34,6ºC às 10h18min. Com a roupa suada, a aposentada Roselana dos Santos se abanava com um leque para tentar amenizar a sensação de calor.
— Não tá adiantando, porque o ar é quente. É um bafo horrível.
Passageira troca de ônibus comum por executivo
Roselana desceu no centro de Gravataí para trocar de ônibus até Porto Alegre. Com o deslocamento maior, ela optou por utilizar o serviço da linha executiva, que possui ar-condicionado. Para isso, irá pagar mais que o dobro do preço da passagem.
Nesta modalidade, o bilhete para quem vai até a Capital é R$ 11,80.
— Na verdade, não vale (pagar mais). Mas fazer o quê? Para a gente ir um pouco mais confortável é o que fazemos — complementa.
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Ao chegar em Cachoeirinha, às 10h53min, o termômetro apontava para 36ºC. O ônibus estava lotado e com passageiros em pé. A vendedora ambulante Luciana Cardoso, 31 anos, subiu na parada 61, ainda em Gravataí, para descer no terminal Rui Barbosa, no centro de Porto Alegre. Ela teve de ficar mais de uma hora dentro do coletivo.
— É difícil pagar caro pra passar trabalho. Eu pego todo dia esse ônibus com meu filho, a gente já passa por dificuldades, como ficar em pé. Com esse calor fica ainda pior — reclama.
O desembarque ao final da linha ocorreu às 11h51min. Na rua fazia 36ºC.
Estado não exige ar-condicionado nas linhas comum metropolitana
O ônibus utilizado é da modalidade comum, que possui passagem mais barata e realiza mais paradas. Conforme decreto estadual, não existe obrigatoriedade de ar-condicionado para estas linhas.
Conforme levantamento feito pela Metroplan, no último dia 10, 16% da frota comum da Região Metropolitana possui ar-condicionado.