
A tarde da terça-feira (1°) havia começado de forma normal na Escola Municipal de Ensino Fundamental João de Zorzi. Segundo o diretor, Jeferson Carvalho, os alunos foram recepcionados como de costume e seguiram para salas, onde as primeiras aulas aconteceriam.
Contudo, o cenário mudou por volta das 13h30min, quando um grupo de alunos passou correndo e gritando pela sala da direção. Carvalho, que estava no local, soube que algo acontecia na sala do sétimo ano. Ao chegar na sala, ele foi uma das primeiras pessoas a encontrar a professora que foi esfaqueada por alunos.
— Ela estava sentada, não tinha entendido o que tinha acontecido. Sequer entendeu que tinha sido ferida. Como ela sangrou bastante, eu tentei estancar o sangue nas partes que vi, mais nas mãos e na cabeça. Na sequência chegou o pessoal da UBS (Unidade Básica de Saúde) e depois Samu e bombeiros — conta.
Segundo o diretor, a professora contou que estava ministrando a aula normalmente. Ela teria se virado para entregar um livro para um aluno quando foi atacada pelas costas. A educadora foi encaminhada para atendimento médico no Hospital da Unimed. O estado de saúde dela é estável.
— Ela está bem, mas inconformada com o que aconteceu, porque essa situação poderia ter acontecido com qualquer um, até mesmo um colega. É um fato isolado que causou muito impacto — comenta o diretor.

Segundo Carvalho, a professora em questão já trabalhou na João de Zorzi em anos anteriores. Ela ministra a disciplina de inglês e vai até a escola apenas nas terças. O diretor alegou não saber o que teria motivado o trio de adolescentes a atacar a professora. Isso porque não há relatos de desentendimentos entre os alunos e a educadora.
Carvalho confirmou que a mãe de um dos alunos envolvidos no ação foi chamada na escola na segunda-feira (31), um dia antes do ocorrido. Contudo, o diretor não acredita que os casos estejam relacionados.
Uma reunião entre a escola, o Conselho Regional de Educação e a Secretaria Municipal de Educação está prevista para acontecer nessa quarta. No encontro, a escola deve decidir qual será o futuro do trio de alunos.
Os três adolescentes — uma menina de 13 anos e dois meninos de 14 e 15 anos — foram apreendidos pela Brigada Militar no final da tarde dessa terça. Eles teriam fugido da escola logo após agredirem a professora.
No início da noite, a adolescente foi liberada após prestar depoimento. Conforme o delegado regional de Caxias do Sul, Augusto Cavalheiro Neto, ela não teria participado diretamente do esfaqueamento da educadora. No entanto, o inquérito policial irá averiguar o envolvimento dela na ação.
Já os outros dois adolescentes, de 14 e 15 anos, seguem apreendidos pela Polícia Civil. Segundo Cavalheiro, os jovens estão em celas separadas, inclusive distantes de adultos que estejam presos.
Eles devem aguardar a decisão do Poder Judiciário sobre uma possível internação na Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase). Segundo o delegado, o retorno do Judiciário deve acontecer em até 24 horas. Enquanto isso, os adolescentes seguem apreendidos.
"Eu não fiz nada para eles"
Conforme o vice-diretor da escola, Gabriel Boff, estudantes da turma deixaram a sala assustados e gritando, relatando que a professora foi atacada. Neste momento, Boff abriu um dos portões, e os alunos saíram e se abrigaram na Unidade Básica de Saúde (UBS) Fátima Baixo, vizinha da escola.
A técnica em enfermagem Raquel Pereira, que trabalha na UBS, conta que ouviu gritos de alunas. As meninas batiam na porta do postinho pedindo socorro.
— Não dava pra entender o que elas diziam, estavam apavoradas e gritavam muito. Aí uma delas disse: "Mataram a profe"— diz.
Os profissionais de saúde da UBS pegaram os materiais de primeiros socorros e foram para a escola. Segundo Raquel, a professora de inglês estava consciente:
— Ela tremia muito, estava assustada e dizia: "Eu não fiz nada para eles. Só me virei para dar aula".
Depois dos primeiros atendimentos, a professora foi encaminhada ao Hospital da Unimed. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, a vítima está estável e não corre risco de morte.
Investigação vai apontar se ação foi premeditada
O delegado regional da Polícia Civil na Serra, Augusto Cavalheiro Neto, diz que as informações preliminares indicam que o ataque foi premeditado, mas isso será confirmado pelo inquérito. Os pais dos adolescentes já foram localizados e também serão ouvidos no inquérito.
Uma equipe da delegacia também analisou as câmeras de segurança da sala de aula, que não estariam funcionando no momento da ação.
— Existem câmeras dentro da escola. Só não sei se as câmeras filmaram ou captaram o momento do ataque — afirma.
Aulas suspensas
Após o episódio, a secretária da Educação de Caxias do Sul, Marta Fattori, anunciou a suspensão das aulas em toda a rede municipal nesta quarta-feira (1º), como forma de apoiar a professora.
— Acho que é bom dar uma parada. A gente precisa repensar algumas coisas e pedir apoio à sociedade, porque a gente precisa preparar essas escolas para que essas situações não ocorram — comenta.
Como foi o ataque
- Segundo a Brigada Militar, o trio, que tem 13, 14 e 15 anos, teria quebrado câmeras de vigilância e, em seguida, agredido a professora com golpes de faca
- Conforme o vice-diretor da escola, Gabriel Boff, estudantes da turma deixaram a sala assustados e gritando e relataram que a professora foi atacada
- Neste momento, ele abriu um dos portões. Os alunos saíram e buscaram ajuda em uma unidade de saúde próxima à escola
- A técnica em enfermagem Raquel Pereira, que trabalha na Unidade Básica de Saúde (UBS) Fátima Baixo, fez o primeiro atendimento à professora
- Nesse momento, os profissionais de saúde da UBS pegaram os materiais de primeiros socorros e foram para a escola. Segundo Raquel, a professora de inglês estava consciente
- Depois disso, os bombeiros e o Samu chegaram à escola e levaram a docente até um hospital. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, a vítima está estável e não corre risco de morte
Nota da Smed
Por volta de 15h, a Secretaria Municipal da Educação enviou uma nota oficial onde informa que os alunos envolvidos no episódio já vinham sendo acompanhados pela escola. Confira na íntegra:
"A Secretaria Municipal da Educação (Smed) informa que está dando todo suporte à comunidade escolar diante do ocorrido nesta terça-feira (01.04) na EMEF João de Zorzi.
Neste momento a preocupação é com o bem-estar de estudantes e professores. A Smed informa ainda que todas as medidas estão sendo tomadas para garantir o acolhimento dos envolvidos.
O diretor administrativo da Smed, André da Silveira, acompanhado pelas equipes Psicossocial e Cipave, está na escola prestando atendimento aos profissionais da escola e aos estudantes.
Os alunos envolvidos no episódio já vinham sendo acompanhados pela escola, e, após o ocorrido, a equipe da Smed seguirá monitorando a situação e providenciando os encaminhamentos necessários."