
Mudanças do elenco principal na sequência de uma trama costumam causar certo desconforto, mas em "As Férias do Pequeno Nicolau", que estreia na quinta-feira na , no Centro de Cultura Ordovás, em Caxias, o próprio título já justifica a troca. O personagem francês, que nasceu nos quadrinhos da dupla René Goscinny e Jean-Jacques Sempé na década de 1950 e ganhou as telonas em 2010 com o filme O Pequeno Nicolau, faz do "ser criança" sua principal essência. Ou seja, não pode crescer, será sempre o "petit" Nicolau. Para isso, foi preciso que o ator mirim do primeiro filme desse espaço a outro. Saiu Maximine Godart e entrou Mathéo Boisselier, que gravou o longa aos nove anos. Essa, porém e infelizmente, não foi a única mudança que o diretor Laurent Tirard imprimiu em sua sequência.
Justamente o que mais chama atenção no primeiro filme, e na veia dos cartoons de Nicolau, é a perspectiva infantil ao olhar o mundo. Mas o que antes rendeu sequências hilárias, parece ter deixado de ser o foco principal em "As Férias do Pequeno Nicolau". Apesar de o roteiro ainda sustentar-se num devaneio ingênuo - Nicolau acredita que seus pais querem o casar com uma garota esquisita filha de amigos, e arruma maneiras inusitadas de impedir tal loucura -, a história abre muito espaço para dramas adultos, o que tira um pouco da graça do longa francês.
Os pais de Nicolau são interpretados pela mesma competente dupla de atores (bingo!), mas ganham quase uma trama à parte da vivida pelo peraltinha. Enquanto a mãe é tentada a virar estrela de cinema (?), o pai se vê escanteado pela esposa e diminuído pela sogra megera. Mas quando o foco são as crianças, temos as melhores cenas do filme. Um ganho especial do longa é a atriz Erja Malatier, que interpreta a namoradinha de Nicolau. A cena em que ela dita a carta que ele deve escrever para a ex é impagável. Já o resto da turminha do garoto não chega a ser tão simpática quanto a do primeiro filme. Ainda temos caricaturas bem infantis - o chorão, o líder, etc -, porém, sobra pouco espaço para que cada um consiga se destacar.
Visualmente, o diretor Laurent Tirard repete o feito de 2010. As cores saturadas e o visual encantador dos anos 1960 estão lá, o que praticamente vale pelo filme todo. E se você se apaixonou pelo figurino bermudinha, gravata e suéter das crianças do primeiro longa, vai continuar adorando os estilosos trajes de praia da petizada - os maiôs das mamães também dão vontade de voltar no tempo.
Sem crescer com relação à idade do protagonista, o longa também não cresce como trama se comparado a seu antecessor. Mas se a régua passa a ser a maioria das produções feitas para crianças, "As Férias do Pequeno Nicolau" ainda é uma ótima pedida.