
Por Doriana Miotto, assistente técnica regional social da Emater
Em meio à beleza e força produtiva do interior do Rio Grande do Sul, cresce uma geração de jovens que, embora muitas vezes invisibilizada, carrega em si o potencial de transformar o campo. Falar de juventude rural é falar de protagonismo, inovação e continuidade — é reconhecer que o futuro do meio rural passa pelas mãos daqueles que crescem entre lavouras, máquinas e implementos agrícolas, galpões, escolas e comunidades do interior.
Segundo dados do censo do IBGE de 2022, o Brasil tem cerca de 8 milhões de jovens entre 15 e 29 anos residentes em áreas rurais. No Rio Grande do Sul, cerca de 270 mil jovens vivem no meio rural. Essa juventude representa uma parcela significativa das famílias da agricultura familiar.
Com a queda progressiva da taxa de natalidade nas últimas décadas, o número de jovens nas famílias rurais também diminuiu, impactando diretamente na dinâmica de sucessão e renovação das gerações no campo o que se soma às dificuldades como o acesso à educação, serviços básicos, infraestrutura e, sobretudo, à valorização social.
Ainda assim, há um movimento crescente de jovens que escolhem permanecer no campo por enxergarem nele um espaço de possibilidades. O meio rural de hoje não é mais o mesmo de décadas atrás: está mais técnico, com menor penosidade no trabalho, uso crescente de maquinário moderno, conectividade, inovação e acesso à informação.
Esses jovens não apenas dominam as tecnologias digitais e agrícolas, mas muitas vezes são os agentes que introduzem essas mudanças nas propriedades, promovendo novas formas de produção, gestão e comercialização.
Programas públicos têm sido fundamentais para apoiar esse protagonismo. O Programa Bolsa Juventude Rural e o Agrofamília-Jovem incentivam a permanência de jovens no campo com apoio financeiro para viabilizar projetos de empreendedorismo e autonomia dos jovens rurais. O acesso ao Crédito Fundiário e às linhas de financiamento do Pronaf Jovem também permitem que jovens possam adquirir terras, investir em atividades produtivas e realizar seus próprios projetos.
Reflexão coletiva
A sucessão familiar no campo é uma das principais preocupações das famílias agricultoras. E aqui é fundamental uma reflexão coletiva: mais do que herdar a terra, os jovens precisam ser parte ativa das decisões e da construção dos projetos familiares.
É essencial que pais e mães criem espaços de diálogo, escuta e planejamento, reconhecendo as ideias, os sonhos e as capacidades das novas gerações. Quando há confiança e oportunidade, os filhos e filhas tornam-se continuadores — e inovadores — da história da família rural
DORIANA MIOTTO
assistente técnica regional da Emater
A Emater tem atuado de forma expressiva nesse processo, promovendo ações de escuta, formação, eventos como seminários, rodas de conversa, visitas técnicas, cursos de empreendedorismo e desenvolvimento e, intercâmbio e incentivo à permanência dos jovens no campo.
Um destaque atual é o Programa Young Farmers, onde a instituição é parceira na organização e que leva jovens rurais do Rio Grande do Sul para vivências de intercâmbio no Canadá. Lá, eles conhecem experiências de agricultura sustentável, gestão de propriedades e inovação tecnológica, retornando com novos conhecimentos e ainda mais vontade de investir no seu próprio território.
No dia 28 de março, embarcaram 18 jovens gaúchos para mais uma etapa do programa, onde permanecem por mais de cinco meses vivenciando e aprendendo sobre a agricultura do país.
É preciso acreditar, apoiar e valorizar a juventude rural. Ela não representa apenas o futuro — ela já é o presente. Cada jovem que permanece no campo, que empreende, que inova e que se conecta com suas raízes, está construindo um meio rural mais justo, moderno e sustentável.
DORIANA MIOTTO
assistente técnica regional da Emater
Aos jovens que, por diferentes razões, deixaram suas propriedades em busca de estudo, trabalho ou novas experiências, saibam que o retorno ao campo pode ser um recomeço cheio de propósito. O meio rural tem se transformado, está mais conectado, tecnificado e cheio de possibilidades para quem deseja empreender com autonomia, inovar e viver com qualidade de vida.
Voltar não é retroceder — é resignificar. É unir o conhecimento adquirido fora com as raízes, a história e o potencial de um território que também precisa da juventude para florescer. O campo os espera, não apenas com saudade, mas com oportunidades reais de protagonismo, renda e realização. Que possamos olhar para nossos jovens com confiança e esperança, oferecendo as condições necessárias para que floresçam onde escolherem fincar suas raízes.
Doriana Gozzi Miotto é assistente técnica regional social da Emater/RS-Ascar, no Escritório Regional de Passo Fundo. Entre em contato em dmiotto@emater.tche.br.