Em seu caminhão carregado com veículos Toyota, Raúl Hernández faz fila ao amanhecer para cruzar a fronteira entre México e Estados Unidos, preocupado com as tarifas que o presidente americano, Donald Trump, anunciará.
Se Trump seguir adiante com seu plano de impor esses impostos aduaneiros e obrigar as empresas a transferirem sua produção para os Estados Unidos, muitos trabalhadores no México sofrerão, diz ele.
"Vai deixar muita gente sem trabalho aqui", afirma este motorista de 37 anos à AFP, enquanto espera na fila para entrar na vizinha San Diego, a partir de Tijuana.
As fábricas operadas por empresas estrangeiras são vitais para a economia de cidades fronteiriças como Tijuana e para seus milhares de trabalhadores, ressalta Hernández.
Muitos empregos dependem das exportações para os Estados Unidos. "Se as fábricas pararem por causa das tarifas, isso prejudica o México, prejudica os cidadãos mexicanos."
Atrás dele, na fila de caminhões, Omar Zepeda também transporta picapes Toyota Tacoma de uma fábrica próxima da montadora japonesa.
Assim como Hernández, Zepeda está apreensivo com o impacto das tarifas.
"O trabalho vai cair bastante para nós, porque o produto vai ficar mais caro e haverá menos compras", prevê este motorista de 40 anos.
- "Vem aí algo difícil" -
As cidades industriais do norte do México abrigam milhares de fábricas graças a benefícios fiscais e ao acordo de livre comércio com os Estados Unidos e o Canadá (T-MEC).
A maior parte das famílias em Tijuana trabalha no "transporte e na mão de obra", aponta Zepeda.
"A verdade é que vem aí algo muito difícil", afirma.
O governo da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, também reconhece essa incerteza. Ela optou por esperar o anúncio das tarifas de Trump antes de divulgar um plano econômico "integral" para enfrentar essa nova ameaça.
Durante seu intervalo em uma fábrica da Toyota nos arredores de Tijuana, Apolos Velas disse que essas tarifas representariam um golpe brutal para a cidade.
"Muita gente vai ficar sem trabalho", afirma.
- Olho por olho -
Em Tijuana, onde a pobreza e o crime não dão trégua, não são apenas os funcionários das fábricas e do setor de transporte que dependem dos bilhões de dólares do comércio entre México e Estados Unidos.
Charito Moreno, que vende burritos para caminhoneiros em uma barraca ao lado da cerca fronteiriça, diz que as tarifas prejudicariam toda Tijuana se as fábricas demitissem trabalhadores.
"Todo mundo depende dessas empresas", afirma a vendedora de 44 anos.
Se as companhias atenderem ao chamado de Trump e transferirem sua produção para os Estados Unidos, "seria muito trágico para Tijuana, porque muitos trabalhadores ficariam sem emprego", diz.
Ao sair de um caminhão que transporta equipamentos para piscinas aos Estados Unidos, Antonio Valdez comenta que agora os transportadores têm mais burocracia para lidar.
"Antes, um trâmite levava uma hora. Agora, passam o dia todo fazendo os cálculos e o pagamento dos impostos" já vigentes, conta, enquanto compra um burrito e segue seu caminho rumo aos Estados Unidos.
Embora Sheinbaum tenha descartado uma resposta do tipo "olho por olho, dente por dente", o caminhoneiro Alejandro Espinoza acredita que o México deve reagir de maneira que afete os Estados Unidos. Se impuserem tarifas, "não vamos mais mandar abacates para eles. Quero ver como vão se virar", diz ele, sorrindo.
* AFP