Equipes de resgate retiraram dois homens com vida dos escombros de um hotel na capital de Mianmar e um terceiro de uma pousada em outra cidade, nesta quarta-feira (2), cinco dias após o terremoto de magnitude 7,7 que devastou o país.
A junta militar que governa Mianmar anunciou que há 2.886 mortos, 4,6 mil pessoas feridas e outras 373 que seguem desaparecidas. Relatórios locais sugerem números ainda mais altos.
O terremoto atingiu a região ao meio-dia da última sexta-feira (28) derrubando milhares de edifícios, colapsando pontes e destruindo estradas.
Resgate dramático na capital
Na capital de Mianmar, Naypyidaw, uma equipe de resgate turca e local utilizou uma câmera endoscópica para localizar Naing Lin Tun, 26 anos, em um andar inferior do hotel danificado onde ele trabalhava. Eles o retiraram cuidadosamente através de um buraco aberto com uma britadeira e o colocaram em uma maca quase 108 horas após ele ter ficado preso.
Sem camisa e coberto de poeira, ele parecia fraco, mas consciente, em um vídeo divulgado pelo Corpo de Bombeiros local, enquanto recebia soro intravenoso antes de ser levado para atendimento.
A emissora estatal MRTV informou mais tarde que outro homem foi resgatado do mesmo prédio mais de 121 horas após o terremoto. Ambos tinham 26 anos.
Outro homem, identificado como Tin Maung Htwe, foi resgatado por equipes da Malásia e de Mianmar de uma pousada desmoronada no município de Sagaing, próximo ao epicentro do terremoto, perto da segunda maior cidade do país, Mandalay.
Cessar-fogo
A junta militar que governa Mianmar anunciou nesta quarta-feira um cessar-fogo temporário nos combates contra grupos armados rebeldes para auxiliar na recuperação após o terremoto.
A junta informou em um comunicado que o cessar-fogo será mantido de hoje até 22 de abril "com o objetivo de acelerar os esforços de ajuda e reconstrução, além de manter a paz e a estabilidade".
Os rivais, o Governo de Unidade Nacional, formado por parlamentares depostos em 2021, e a Aliança dos Três Irmãos, uma das poderosas milícias que tomaram uma grande parte do país do controle militar, já haviam convocado um cessar-fogo para suas forças.
"Grave escassez" de suprimentos
As agências internacionais alertaram que Mianmar não tem recursos para lidar com um desastre dessa magnitude. Mas, mesmo antes do terremoto, as Nações Unidas já estimavam que cerca de um terço da população estaria em risco de fome em 2025.
Uma "grave escassez" de suprimentos médicos dificulta a ajuda, alertou a ONU, ao afirmar que os socorristas não têm equipamentos de trauma, bolsas de sangue, anestésicos e medicamentos essenciais.
As operações de resgate também são prejudicadas pelos danos a hospitais e infraestrutura de saúde, assim como estradas e redes de comunicação.
Enquanto áreas residenciais seguem sem eletricidade ou água encanada, habitantes de Sagaing tomam banho no rio Irauádi, em frente à ponte Ava — também conhecida como ponte Inwa —, que foi completamente destruida.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) enviou com urgência quase 3 toneladas de suprimentos médicos para hospitais em Mandalay e Naypyidaw, a capital, onde milhares de feridos estão sendo tratados.
No domingo, a OMS lançou chamado para arrecadar rapidamente o equivalente a R$ 46 milhões para salvar vidas e prevenir epidemias nos próximos dias.
"As avaliações preliminares indicam número elevado de vítimas e feridos relacionados a traumatismos, que precisam de atendimento de urgência", declarou a OMS. A organização "classificou essa crise em urgência nível 3", o mais elevado de seu programa de intervenção.
Desabrigados
Cinco dias depois do terremoto, muitas pessoas ainda dormem ao ar livre, seja por não conseguirem voltar para suas casas destruídas ou por medo de novos tremores secundários.
Em entrevista ao programa Gaúcha +, da Rádio Gaúcha, o brasileiro Diogo Alcântara, porta-voz do Alto Comissariado para Refugiados da ONU (Acnur) em Mianmar, detalhou os impactos do desastre.
Além das edificações destruídas, Alcântara aponta para um receio generalizado de retornar para as moradias que permaneceram de pé. Réplicas do terremoto, menores tremores que seguem o primeiro, fazem com que muitos prefiram dormir nas ruas, sob condições precárias e sem segurança, contou o representante da ONU.
— É uma sobreposição de tragédias — disse Alcântara.
Segundo Alcântara, o golpe militar desencadeou uma série de conflitos armados, não apenas entre os grupos armados e o exército, mas também entre os próprios grupos insurgentes. Esse ambiente de guerra civil agravou os efeitos do terremoto.
O porta-voz apontou duas consequências importantes desse contexto pré-existente. Por um lado, a presença consolidada de agências humanitárias permitiu uma resposta rápida à tragédia. Por outro, o terremoto intensificou a crise já complexa:
— O terremoto atingiu justamente a região mais impactada pelo conflito. Para algumas pessoas, é a segunda ou terceira vez perdendo tudo o que têm.
Alcântara ressaltou que o deslocamento forçado de populações tem sido uma das consequências mais graves.
— Significa você, do dia para a noite, ter que sair de casa com a roupa do corpo — explicou Alcântara, que continua apontando que muitas pessoas, que já haviam fugido da violência, agora se veem obrigadas a sair de suas casas novamente devido a desastres naturais:
— A violência chegou na cidade delas, elas saíram dali, depois chegou de novo, fugiram outra vez, e agora o terremoto atingiu justamente essa região — disse Diego sobre a região noroeste do país, que já era uma das mais afetadas pelos confrontos e recebia cerca de metade dos deslocados.
Ajuda internacional
A Austrália anunciou na quarta-feira que fornecerá mais US$ 4,5 milhões, além dos US$ 1,25 milhão já comprometidos, e enviou uma equipe de resposta rápida ao país.
A Índia enviou aviões com ajuda e dois navios da Marinha com suprimentos, além de cerca de 200 socorristas. A China enviou 270 pessoas, Rússia, 212, e Emirados Árabes Unidos 122 pessoas.
Uma equipe de três pessoas da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) chegou na terça-feira para avaliar como responder, diante dos cortes no orçamento de ajuda externa dos EUA. Washington anunciou que fornecerá US$ 2 milhões em assistência emergencial.
* Produção: Camila Mendes