O chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Antony Blinken, chegou nesta terça-feira (29) ao Marrocos para consolidar uma associação estratégica na região que vive um clima de tensões, depois de ter comparecido a uma cúpula histórica em Israel com países árabes.
Blinken foi recebido durante a manhã pelo chanceler marroquino Nasser Bourita, que também esteve na segunda-feira na reunião em Israel entre o americano e os ministros dos Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito.
Ambos os chefes da diplomacia abordaram a guerra na Ucrânia e suas consequências alimentares "desastrosas", a segurança bilateral e regional, a normalização acelerada das relações entre Marrocos e Israel e os direitos humanos.
Sobre o conflito ucraniano, Blinken expressou dúvidas sobre a "real seriedade" da Rússia após o anúncio de um progresso "substancial" nas negociações entre representantes de Kiev e Moscou em Istambul.
"Existe o que a Rússia diz e o que a Rússia faz. Nós nos concentramos no que ela faz", disse Blinken durante uma coletiva ao lado de seu colega marroquino.
O secretário de Estado assegurou que Washington estuda meios para "ajudar a reduzir" o impacto socioeconômico do conflito diante do aumento dos preços das commodities e do risco de escassez de trigo, "particularmente para os mais vulneráveis populações."
Como esperado, o caso do Saara Ocidental, prioridade para a diplomacia marroquina, foi um dos temas da conversa entre os dois.
Blinken reiterou o apoio dos Estados Unidos ao plano de autonomia - "sério, credível e realista" - apresentado por Marrocos para resolver a "diferença" que o opõe há décadas aos separatistas saharauis apoiados por Argel.
Ele também expressou o apoio de Washington ao enviado pessoal do secretário-geral da ONU, Staffan de Mistura, e ao "processo político" sob os auspícios das Nações Unidas.
Bourita exortou a Europa a "sair de sua zona de conforto, em que só apoia um processo sem apoiar uma solução" e, como fez a Espanha recentemente, a aderir à iniciativa de autonomia sob soberania marroquina.
Blinken também se reuniu com o primeiro-ministro marroquino, Aziz Akhannou, e com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi e o governante dos Emirados Árabes Unidos, Mohamed bin Zayed Al Nahyan, cujas relações com os Estados Unidos, um aliado tradicional, estão sendo testadas após uma série de divergências.
Assim como Israel, os Emirados e Marrocos têm uma frente comum contra o Irã. Os Estados Unidos querem reativar o acordo nuclear de 2015 com Teerã, o que teoricamente deveria impedir o país de desenvolver a bomba atômica em troca da suspensão das sanções internacionais.
Além disso, os Emirados fazem parte de uma coalizão militar liderada pela Arábia Saudita que ajuda desde 2015 o governo do Iêmen, em guerra com os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã.
O chefe da diplomacia americana concluirá na quarta-feira sua viagem regional com uma visita à Argélia, país que enfrenta Marrocos e é aliado da Rússia.
- "Interesses comuns" -
O Departamento de Estado também elogiou uma "associação estratégica baseada em interesses comuns para a paz, a segurança e a prosperidade" na região.
Quanto à guerra na Ucrânia, Marrocos não participou das duas votações da Assembleia Geral da ONU que condenaram a invasão russa, abstendo-se assim de se posicionar no conflito.
De acordo com os analistas, essa neutralidade ilustra a vontade de Rabat de não enfrentar abertamente a Rússia, membro do Conselho de Segurança da ONU, por causa da questão do Saara Ocidental.
Em Argel, Blinken continuará suas negociações sobre a cooperação em segurança - particularmente no Sahel - e abordará a guerra na Ucrânia.
O chefe da diplomacia dos Estados Unidos também poderia evocar a reabertura de um gasoduto entre o norte da África e a Europa, que permita reduzir a dependência dos países da União Europeia do gás russo.
Esta rota que passa por Marrocos e vai até a Espanha foi fechada em outubro pela Argélia após o rompimento das relações diplomáticas com Rabat em agosto de 2021.
* AFP