
Me lembro do dia em que conheci Pelé. Foi um momento de muita alegria. Minhas pernas tremeram, fiquei emocionado. Parecia que ele tinha três metros de altura.
Mas teve mais. Pelé, simplesmente, foi meu padrinho no futebol. O início no Santos foi graças a ele. Nossas famílias eram amigas, porque sou de Jaú e ele se criou em Bauru, cidades vizinhas no interior de São Paulo.
Um dia, a irmã dele estava na minha casa, conversando com a minha irmã, e avisou que Pelé queria saber se eu também jogava bola, porque meus irmãos eram jogadores. Depois da resposta afirmativa, ele disse para a minha família:
— Falem com o Santos que eu apresento o Edu por lá para fazer um teste.
Olha o tamanho da responsabilidade: foi o Pelé em pessoa que me levou ao clube. Era o ano de 1965, ele já era o Rei. Eu tinha 15 anos. Fiz um ano com os jovens e logo subi para o time profissional. No ano seguinte, comecei a jogar, fui entrando aos poucos, conquistando meu espaço. Pelé me apresentou e, depois, seguiu fazendo de tudo por mim.
Apesar dessa proximidade, demorei para finalmente jogar com Pelé. Primeiro porque, como ele tinha muitos compromissos, nem sempre podia treinar conosco, chegava depois. E muitas vezes treinou sozinho. Mas nunca deixava de trabalhar, ele e o futebol foram feitos um para o outro.
Depois, quando jogaríamos juntos, ele se machucou. Então só fomos jogar mesmo na preparação para a Copa do Mundo de 1966. Fui o jogador mais jovem a ser convocado para uma Copa do Mundo, tinha apenas 16 anos. Enfrentamos o AIK, na Suécia, na preparação. Formei ataque com Garrincha e Pelé, é mole?
Tive a sorte de jogar mais 10 anos com ele. Em 1974, ele deixou o Santos. Em 1977, também saí da Vila Belmiro, joguei no Inter. Criei um vínculo com o Rio Grande do Sul, a família da minha esposa é daí. Visito várias vezes o Estado.
Mas voltando ao Pelé: era impressionante a sua humildade. Tratava a todos de maneira igual. E nos protegia. Quando jogavam limpo, ele jogava limpo. Agora, se batiam nele em campo, sabia se defender. Como eu era ponteiro e gostava de driblar, os laterais me pegavam. Pelé vinha lá de trás e avisava que era para parar.
Tomava as dores mesmo. Teve um jogo marcante depois daquela Copa, que me consolidou no Santos. Fomos para Nova York participar de um torneio com Inter de Milão, AEK, da Grécia, e Benfica. Tinha aquela marca de perdermos a Copa para Portugal, e bateram no Pelé. Nosso ataque: Mengálvio, Dorval, Pelé, Toninho e Edu. Estávamos muito bem. Fiz um gol. Depois o Pelé me deixou na cara do gol, fiz o segundo. Era o jogo para me consagrar. Então ele recebeu a bola, dominou, deu um balãozinho no zagueiro, fez que ia chutar e tirou o goleiro. Um golaço! O jogo acabou, porque a torcida invadiu o campo para comemorar com ele.
Por isso que, quando alguém me pergunta se o Pelé era bom mesmo, sempre respondo:
— Ele era tudo o que você imagina e mais um pouco.