
"Nascido lá no pontão / Num dia de cerração / Tapado pela fumaça / Cantor de fôlego e raça". Aos 82 anos, o cantor, compositor e instrumentista Pedro Ortaça foi assim apresentado por Jayme Caetano Braun na abertura do álbum Troncos Missioneiros (1988), uma das obras fundamentais da música gaúcha.
Hoje, Pedro Ortaça é o último tronco missioneiro, após a partida de Jayme, de Cenair Maicá e de Noel Guarany. Quarteto que ajudou a estabelecer, na cultura do Estado, a tradição e a história do povo das Missões.
Para honrar tal feito, Pedro Ortaça recebe no próximo dia 10 de abril o título doutor honoris causa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
A cerimônia está marcada para as 16h, no Centro de Convenções da UFSM. O parecer do conselho universitário da instituição, em sua justificativa, destacou que os quatro troncos missioneiros foram um "importante reflexo da história e da cultura da região das Missões", e Pedro Ortaça, em particular, "se destacou não apenas pela musicalidade, mas também por seu engajamento com questões sociais e culturais, como a defesa dos direitos dos povos indígenas".
Em entrevista ao Programa Playlist, da Rádio Gaúcha, Pedro Ortaça falou sobre o título, disse que apesar de recentes problemas de saúde vai continuar compondo e cantando "sempre que for convidado" e destacou a justiça social e a denúncia da música missioneira. Confira trechos da entrevista abaixo.
Qual o sentimento de receber o título doutor honoris causa da Universidade Federal de Santa Maria?
É um sentimento de alegria, de satisfação, de caminhada muito bem sucedida. Tenho andado por vários Estados do nosso país e muito bem recebido como sempre fui, e levo essa cantiga do nosso Estado. Quero dizer da alegria que eu sinto em receber esse título, que muito me honra, porque a caminhada valeu a pena, o trabalho, a luta pela cantiga, a luta pela cultura do nosso Estado, a luta pelo índio, a luta pelo negro que fazem parte da nossa sociedade, que estão na nossa alma, no nosso sentimento, arraigado no nosso coração. É um sentimento de justiça, de alegria e de satisfação que nós temos em cantar a nossa terra e o nosso povo.
Sobre as questões de saúde, como tu estás?
Estou ótimo, estou bem. Graças a Deus, com o apoio dos amigos, da família, de todos os médicos que me atenderam e atendem muito bem aqui no Hospital de Clínicas de Ijuí e em Porto Alegre também, na Santa Casa.
Agora que tu estás te recuperando deste susto, qual é a motivação e o astral para novas composições. Tens ideia de compor mais músicas, seguir trabalhando?
Continuo compondo e cantando sempre quando der oportunidade e que eu sou convidado por aí. Cantar realmente é uma satisfação imensa e o Gabriel (o filho Gabriel Ortaça) está continuando a nossa caminhada, tocando guitarra, a acordeona e é compositor. É uma alegria saber que a nossa música está ultrapassando as fronteiras do Brasil há muito tempo e eu que já cantei no Paraguai, na Argentina muitas vezes e muito bem recebido.
A história dos Troncos Missioneiros, com o passar do tempo, dá a impressão de ficar cada vez maior. E mesmo o público urbano, que não é das Missões, vai tomando conhecimento e alimentando um sentimento de orgulho, de pertencimento. Essa é também é a tua impressão?
Realmente é maior a aceitação do povo para esses grandes parceiros, grandes amigos e grandes poetas e cantores do nosso Rio Grande, que é o Jayme Caetano Braun, o Noel Guarani, o Cenair Maicá, e este amigo aqui de vocês. Graças a Deus que essa música que criamos um dia, há mais de 50 anos, está enraizada no povo do Rio Grande, e isso é importantíssimo. Porque fala de justiça, fala de alegria, fala de satisfação e denuncia alguma coisa errada que existe no nosso país. E essa é a cantiga que eu represento, junto com o Noel, com o Cenair e o Jayme. Me sinto realmente realizado e feliz por Deus ter me dado a oportunidade de eu chegar até aqui.