
Aos que tiverem disposição para um teste rápido: ligue o rádio agora mesmo e busque pelas rádios românticas que eles estarão lá. O Air Supply é onipresente e acumula um conjunto de canções mais famosas do que seu próprio nome. As pessoas podem não se lembrar quem são Graham Russell e Russell Hitchcock, os dois cantores, mas reconhecerão imediatamente gatilhos emocionais como Lost In Love, Goodbye, Here I Am, Sweet Dreams, Making Love Out of Nothing at All e Without You. São elas que ajudam a aumentar as taxas populacionais pelo mundo nos últimos 50 anos.
Russell e Hitchcock se apresentam neste domingo (16) em São Paulo, e responderam às perguntas do Estadão sobre o aumento da busca pelos sons nostálgicos nas plataformas de streaming, a origem de suas canções e a relação do cancioneiro romântico com o amor livre, entre pessoas do mesmo sexo.
Generosos, os dois australianos estão juntos desde 1975 e sabem como poucos o que funciona em uma canção. Há ciência nisso?
— Não, não há. Esqueça isso. Uma boa música é uma boa música, e vem do ar, Air Supply, entendeu? — diz Hitchcock.
Russell completa:
— Uma equação matemática não é uma música, ciência e métrica não fazem uma boa música, o que faz uma boa música é o amor.
Algumas pesquisas recentes mostraram que as pessoas estão cada vez mais procurando por músicas antigas, por memórias afetivas. Estamos vivendo o tempo da nostalgia como nunca, senhor Graham Russell?
— As pessoas estão sempre à procura de boas músicas, e acredito que esse seja um dos motivos que levam os Beatles a continuarem tão populares quanto foram há 50, 60 anos. Acho que as pessoas procuram por isso, ainda mais num tempo em que existe tanta música, a maioria genérica. Não há mais diversidade musical.
Origens
Sobre a origem de algumas canções, Graham vai falando:
— Making Love Out of Nothing at All: essa foi trazida por um empresário nosso da época, e concluímos que seria uma boa ideia adicioná-la. Gravamos em Nova York com músicos incríveis da banda de Bruce Springsteen. Um dos nossos maiores hits. All Out of Love foi sucesso na Austrália, em 1978, mas não foi um hit no resto do mundo até 1980. Tivemos de esperar dois anos. Ela foi escrita em meia hora. Já Goodbye ficou especialmente famosa nas Filipinas — relembra.
— I Can Wait Forever: David Foster e nós a escrevemos durante um evento em cerca de uma hora. Mais uma vez, Russell surpreendeu com a voz fantástica. Pegou no primeiro take. Lost In Love foi nosso primeiro grande hit mundial, e escrita em 15 minutos, simples, e, mais uma vez, é um testamento para a voz de Russell, no final, onde ele atinge notas altas, o que não foi algo que havíamos planejado. Ele fez e ficamos, tipo, "uau!", não esperávamos aquilo" — conta ele.
O amor subentendido em cada canção romântica dos anos 1970 é o amor hétero. Mas como fica isso num mundo que tem rediscutido esses formatos da indústria cultural, fazendo as pessoas olharem para um amor mais livre de gêneros? Russell Hitchcock diz:
— O amor que cantamos não é sobre casais heterossexuais, homossexuais, transgêneros... Uma canção de amor é uma canção de amor, se você está envolvido com alguém, tira o que pode daquela música. Não se escreve uma música de amor para marido e mulher, marido e marido ou mulher e mulher, não faz o menor sentido. O amor é um sentimento universal, não importa qual o seu gênero, nada assim. Amor é amor — sublinha.
Voz
É importante falar ainda sobre a voz de Russell Hitchcock, 73 anos. Ela não é a mesma de sua juventude, e não chega aos lugares altos do passado. Ele fala sobre isso um pouco sem jeito.
— Talvez para algumas poucas músicas, senti a necessidade de abaixar um tom. Sei também que minha voz soa muito mais profunda. Algumas vezes escuto a Lost In Love original e pareço uma garota cantando. Fui sortudo o suficiente para manter a qualidade que sempre tive — reflete.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.