
Curador-chefe da 14ª Bienal do Mercosul, Raphael Fonseca nasceu no Rio de Janeiro e vive em Denver, nos Estados Unidos, onde trabalha como curador de arte moderna e contemporânea latino-americana no Denver Art Museum.
Até 1º de junho, a Bienal do Mercosul reunirá obras de 77 artistas de diversas regiões do mundo e se espalhará por 18 espaços da capital gaúcha e da Região Metropolitana (acesse mapa interativo).
Em entrevista a Zero Hora, Fonseca falou sobre a concepção desta edição da megaexposição, que tem como tema "Estalo".
Leia a entrevista com Raphael Fonseca
Do ponto de vista da curadoria, como essa edição da Bienal do Mercosul se diferencia das outras?
Tem um dado da Bienal que é o reflexo do lugar de onde vem não só eu, mas o grupo dos curadores. Há um desejo de fazê-la para além dos lugares habituais onde ela acontece.
A Bienal tem um histórico de acontecer no Cais e em instituições no Centro Histórico. Então, buscamos ampliar a presença em outras regiões de Porto Alegre, como o Museu da Cultura Hip Hop RS e a Fundação Vera Chaves Barcellos, lá em Viamão.
Outra diferença é a equipe curatorial, que é formada por três grandes times: o pessoal que cuida mais das exposições e publicações, o pessoal dos programas públicos e o pessoal educativo. Há também mais participação dos artistas.
O interesse não está só nos lugares vistos como centrais ou elitizados de Porto Alegre
A Bienal do Mercosul tem sua essência na América Latina e segue tendo. Não só porque acontece no Brasil, mas porque a gente tem uma presença grande de artistas nascidos ou que moram na América Latina.
Mas para mim, como curador, interessava trazer pessoas de outros lugares do mundo também. Por isso, há a presença de pessoas de diferentes lugares da Ásia, do mundo árabe e dos Estados Unidos. Tem uma diversidade geográfica e, por tabela, cultural que acho que faz esta Bienal ser um pouquinho diferente das anteriores.

Você já comentou a importância de eleger uma equipe diversa, com origem na classe trabalhadora. De que maneira isso enriquece a Bienal?
Esse é o lugar de onde venho, sem tirar nem pôr. Também é de onde vem grande parte da equipe curatorial. Na minha família, sou a primeira pessoa a fazer universidade.
Quando você faz uma bienal em que a classe trabalhadora está nesse lugar de curadoria, talvez a gente pense em uma relação com o público não especializado de forma diferente de outros curadores que não vêm desse lugar.
Não estou afirmando que isso é uma regra, mas creio que é inevitável: você vem de um lugar social, você vê o mundo por uma lente. A vida te coloca novas lentes toda hora, mas tem lentes que vêm de uma primeira socialização, da sua família.
Há sempre um desejo de atrair cada vez mais um público não especializado
Isso também reverbera na Bienal, na seleção de artistas, na seleção de obras, na ocupação dos espaços. O interesse não está só nos lugares vistos como centrais ou elitizados de Porto Alegre.
A gente não acha que alguma Bienal vai salvar o mundo, mas esse lugar socioeconômico de onde viemos contribui para colocar questões que curadores de outros lugares não colocariam. O que não faz a gente ser melhor nem pior que ninguém, só diferente.

Um desafio constante em uma bienal é conquistar pessoas que não têm hábito de frequentar museu. De que maneira se trabalha para que isso ocorra nesta edição?
Antes de trabalhar como curador, fui professor de Artes Visuais do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Comecei a fazer curadoria depois de virar professor de turma do primeiro ano do Ensino Médio. Grande parte deles nunca havia visto uma exposição. A primeira vez que eu mesmo fui ver uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, tinha 13 ou 14 anos.
Agora, como a gente chega a esse público (que não costuma frequentar museus)? É sempre uma aposta, pois não tenho como controlar a reação das pessoas e o que pode funcionar ou não. É pensar a seleção de espaços, artistas e obras. Pensar que é importante, sim, ter trabalhos que funcionam quase como "piadas internas" para quem é do campo das artes visuais, mas também que os trabalhos tenham um caráter mais pop, aberto, até mesmo mais espetacular.
Vários artistas daqui de Porto Alegre que estão na programação me falaram que a Bienal do Mercosul foi a primeira vez que viram uma exposição e que os levou a quererem ser artistas visuais
É uma grande tentativa de equilíbrio, que a gente sabe que é impossível, mas é um ótimo desafio para alguém que está programando um evento qualquer, não só uma exposição de artes visuais. Há sempre um desejo de atrair cada vez mais um público não especializado.
Vários artistas daqui de Porto Alegre que estão na programação me falaram que a Bienal do Mercosul foi a primeira vez que viram uma exposição e que os levou a quererem ser artistas visuais.
Se mantivermos esse ciclo, fizermos com que as pessoas se vejam na Bienal e percebam que ali tem um universo possível de conhecimento, cumpriremos grande parte do nosso papel.
O planejamento da Bienal deste ano foi atravessado pela enchente. Quais foram os principais desafios?
Fazer a Bienal é uma grande prova contra o tempo. A enchente também, obviamente, foi um desafio. Quando aconteceu, tínhamos grande parte de Bienal pensada e definida, tanto espaços com distribuição de artistas quanto seleção de obras. Pessoas estavam fazendo obras para a Bienal.
É muito desafiador ter que lidar com esse relógio e lidar também com os malabarismos orçamentários. E ainda lidar com o trauma da enchente.
É óbvio que a Bienal reverbera a enchente e acontece no contexto pós-enchente, mas nunca quis transformar a Bienal em uma estetização da tragédia.
A gente segue tendo trabalhos que pensam o trágico, mas damos espaço também para a população da cidade e de outros lugares sonharem por outras chaves. E para que Porto Alegre também não seja lida exclusivamente pela chave da enchente, porque a cidade é muito maior do que isso, mesmo que esse fantasma vá seguir ecoando aqui por muito tempo.

Como o conceito de "estalo" conduziu a curadoria desta edição?
Surgiu muito sem querer, em um contexto pós-pandemia. Não queria dar para Bienal um título de frase de efeito, nem algo que fosse uma citação. Um belo dia, me surgiu essa palavra na cabeça, que no português resume muitas coisas. O gesto de estalar com os dedos tem a ver com ritmo, música, barulho e os mais variados fenômenos da natureza.
Achamos bacana dar um título que fosse amplo e permitisse artistas de desejos diferentes e espaços muito diferentes também. Estalo é um guarda-chuva, com muitos lados e muitas cores.
Depois, a gente concluiu que valeria a pena ter 18 nomes diferentes para cada espaço da Bienal. Aprendemos que estalo não era só o tema da Bienal, mas uma espécie de proposição. Cada exposição é um estalo, digamos assim.
Como se deu a seleção dos trabalhos comissionados?
Acho que mais de 75% da Bienal é de obras comissionadas (encomendadas pelo evento). Uma obra da Vitória Cribb foi feita em parceria com a Sharjah Biennial, nos Emirados Árabes Unidos. O trabalho que ela acabou de mostrar lá é o mesmo que está mostrando aqui. Foi muito bacana, uma parceria inédita.
Tem vários casos, incluindo obras para um espaço específico. Por exemplo, Tirzo Martha na Usina do Gasômetro é um trabalho que responde à arquitetura de lá.
Tem artistas que fizeram trabalhos novos e depois a gente foi decidir onde seriam mostrados, como os da Letícia Lopes na Fundação Iberê Camargo ou do Randolpho Lamonier no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul.
É óbvio que a Bienal reverbera a enchente e acontece no contexto pós-enchente, mas nunca quis transformar a Bienal em uma estetização da tragédia
O critério para comissionar é amplo. Tem a ver com a disponibilidade do artista, com desejo de curadores, com o espaço que eles têm, com o orçamento. Fico muito feliz que a gente conseguiu comissionar artistas de lugares variados do mundo e com práticas diferentes. Não é que a gente comissionou só vídeo, só pintura. Tem de tudo.
Há também artistas gaúchos. Poderia falar um pouco sobre os selecionados?
Antes de fazer a Bienal do Mercosul, fiz vários projetos aqui. Fui mais de 30 vezes a Porto Alegre na vida. Adoro estar aqui e tenho vários amigos artistas que são daqui.
Então, uma das minhas preocupações era falar com os artistas não só de Porto Alegre, mas do Rio Grande do Sul, e pensar o que faz sentido e o que não faz. Fizemos uma série de conversas online e algumas presenciais com vários artistas e fomos pensando.
É muito bacana que tem um cara como o Lorenzo Beust, de 26 anos, que essa é uma das primeiras exposições dele na vida. Ou casos como Chico Machado e Mauro Fuke, que são da Geração 80. São artistas incríveis. Mauro participou de duas Bienais do Mercosul, e Chico nunca participou.
Tem Djalma do Alegrete e Claudio Goulart, que são artistas já falecidos de lugares sociais bem diferentes. Claudio era um videoartista, alguém da performance, enquanto Djalma era pintor e desenhista.
Ao mesmo tempo, tem pessoas que vêm sempre, de gerações, lugares sociais e linguagens muito diferentes. Isso é muito importante não só nesta mas em qualquer Bienal do mundo. É essencial ter pessoas que vivem na cidade.

Neste ano, a Bienal incluiu espaços inéditos como a Cinemateca Capitólio, o Museu da Cultura Hip Hop RS e o POP Center. Como foi o aproveitamento do Pop Center, que não é um espaço cultural?
O Pop Center é um lugar incrível! É um vuco-vuco absurdo de gente, situações, barulhos, cheiros, como qualquer mercado popular em qualquer lugar do mundo. Na minha primeira visita, fui a muitos lugares, mas cheguei lá e fiquei fascinado.
Lá temos dois trabalhos. Um é da Fátima Rodrigues, que é artista peruana e trabalha com cultura pop, música, decoração e abstração. Duas partes do Pop Center terão dois adesivos holográficos, com um globo em cima como se fosse uma pista de dança, com música tocando o dia inteiro nos dois corredores.
Uma das minhas preocupações era falar com os artistas não só de Porto Alegre, mas do Rio Grande do Sul, e pensar o que faz sentido e o que não faz
O outro trabalho no Pop Center é do artista Ismael Monticelli, que é gaúcho e hoje mora em Brasília (DF). Fez um trabalho pensando em um fenômeno que rolou recentemente na época da tragédia de Brumadinho (MG), em que encontraram no fundo do rio uma série de caras decalcadas sobre a superfície do rio. A partir daí e dessa relação com o emoji, das expressões pelo desenho e pelos símbolos do celular, ele fez um trabalho todo com neon. Esse trabalho é um pouco mais melancólico, digamos assim.
Espero que a parceria com o Pop Center seja profunda nas futuras bienais, porque é um lugar muito importante para a cidade. Os trabalhos vão ter contato com pessoas que talvez nunca tenham visto uma exposição de arte antes. Talvez muita gente nem perceba que aquele é um trabalho da Bienal do Mercosul, mas acho incrível que as pessoas possam conversar com essas imagens por alguns meses.

Também há a inclusão dos bairros Lomba do Pinheiro e Restinga, em unidades do Estação Cidadania, como novidades deste ano.
A ideia de incluí-los vem do lugar social de onde a curadoria veio. Os dois espaços são muito legais. Sempre sou favorável a ocupar lugares que não são apenas o centro da cidade, mas também têm uma vida intensa ao seu redor.
Como as duas Estações de Cidadania também são centros comunitários, que têm cursos, shows, esporte, por que não ocupá-las? Nesse espaços, há dois paredões de 18 m² com dois artistas. Um deles é o mexicano Urmeer, a partir de um workshop de desenho que ele fez com crianças e adultos da Lomba do Pinheiro. O mural dele reúne elementos do bairro e reconfigura alguns desenhos que o pessoal fez nesse workshop. E também conversa com várias tradições do muralismo mexicano.
Já o outro artista é da casa, Felipe Veeck, da zona norte de Porto Alegre. Ele tem um trabalho com lambe-lambe e faz desenhos com pixels, bem Paintbrush. Felipe produziu uma imagem grandona com lambe-lambe que pensa no ônibus em Porto Alegre e em diferentes áreas da cidade, trabalhando também com a ideia de comunidade.
Um espaço importante da Bienal deste ano é a Usina do Gasômetro, que reabre após sete anos. Como foi o trabalho lá?
Abrir para Bienal do Mercosul é a primeira de muitas etapas do espaço. É uma arquitetura incrível, um espaço histórico.
A primeira Bienal do Mercosul que vi lá foi a oitava, do (curador-geral) José Roca. Lembro de ficar supersurpreso. Lá teremos uma exposição chamada Faísca, que lida com artistas de muitos lugares: do Brasil tem biarritzzz e Marcus Deusdedit, tem os americanos Jacolby Satterwhite e Paul Mpagi Sepuya, o uruguaio Ulises Beisso e o boliviano Damián Ayma Zepita. É um lugar que aponta para muitas direções e reúne artistas que pensam música, som e movimento.